«Todos no mesmo barco, cheios de esperança»
Queridos amigos,
Escrevo-vos ainda a recuperar das emoções das últimas semanas, com a peregrinação a Roma por ocasião do ano de Jubileu da Esperança e as festas em honra de Nossa Senhora da Boa Viagem!
Com 45 peregrinos das nossas paróquias da Ericeira e Carvoeira, partimos no famoso Autocarro 8 – com tantos vídeos e seguidores na rede social Tik Tok – e juntámo-nos à grande peregrinação da nossa diocese de Lisboa, com cerca de 1600 jovens e mais 30 autocarros. Fomos passando por Barcelona (Sagrada Família), Turim (em cuja Catedral está o Santo Sudário) até finalmente chegarmos a Roma. Aí o nosso grupo ficou alojado numa escola primária na Paróquia de S. João Baptista de la Salle durante 4 noites, com oportunidade para visitarmos as Basílicas Maiores, atravessando as portas santas e visitando muitas outras igrejas e as ruas de Roma, com toda a sua beleza e património histórico. Entre os nossos jovens, organizámo-nos em várias equipas para melhor nos deslocarmos e calhou-me acompanhar uma equipa só de meninas muito animadas com quem defini a seguinte regra: “por cada loja onde vocês, meninas, queiram entrar ou ver a montra, entramos também numa igreja a seguir”. Assim aconteceu e, graças a essa regra, visitámos muitas igrejas, entre as quais a igreja de S. Marcelo, na Via del Corso, onde estava a relíquia do B. Carlo Acutis. Foram dias muito divertidos e profundos, com cenas inesperadas. Tivemos a primeira surpresa com a passagem do Papa Leão logo no final da Missa de abertura do Jubileu, na Praça de S. Pedro, no dia 29 julho. No dia 30 tivemos Missa com todos os portugueses na Basílica de S. Paulo Fora de Muros. No dia 31 visitámos a Basílica de Santa Maria Maior, onde está sepultado o saudoso Papa Francisco, e tivemos um almoço muito especial com as irmãs Missionárias Combonianas, da família da nossa irmã Beta. Nessa noite ainda rezámos na Escadaria da Piazza di Spagna, cantando «Senhor, vela por mim» até a polícia italiana nos convidar a sair dali. Na 6ª feira, dia 1 agosto, aconteceu outra grande surpresa: depois de passarmos horas e horas à espera numa fila interminável, entre orações, conversas, confissões, não fomos autorizados a entrar na Basílica de S. Pedro, mas fomos depois surpreendentemente compensados com a celebração da Missa com o Cardeal Tolentino, que ainda nos levou a jantar fora e a comer um gelado. Assim percebemos que «este ano de Jubileu é um ano para aprendermos a esperar, a não fazer nada, a deixar Deus ser Deus, a deixar Deus fazer». Na manhã de sábado, bem cedo, conseguimos finalmente atravessar a porta santa da Basílica de S. Pedro, rezando o Credo junto ao altar sobre o túmulo de Pedro. Nesse dia, peregrinámos vários quilómetros a pé até Tor Vergata, com mais de 1 milhão de jovens, para uma vigília de oração com o Papa Leão e uma noite ao relento, terminando o Jubileu com a Missa de envio no domingo de manhã. O Papa Leão ensinou-nos que a Esperança se sustenta na amizade com Jesus e na amizade uns com os outros – é muito mais fácil esperar acompanhado, junto dos verdadeiros amigos – e que a Esperança nos torna capazes de tomar decisões definitivas de vida, no que diz respeito à vocação. O Papa lembrou ainda que todos temos no coração um desejo infinito de coisas maiores, que só Deus pode corresponder plenamente. Por fim, regressámos a Portugal parando ainda no Santuário de Lourdes, onde participámos na Via Sacra, na Procissão dos Doentes rezando o Terço e na Missa na gruta. Chegámos na noite de 5 agosto, cansados e felizes.
Logo em seguida, no dia 8 agosto, começaram as festas em honra de Nossa Senhora da Boa Viagem, Padroeira dos Pescadores da Ericeira. Com uma fantástica Equipa de Comissão de Festas, tão dedicada a manter a tradição da nossa vila, e ainda com a ajuda da comissão Ave Maria Puríssima, responsável pela organização das Procissões, pudemos festejar a Padroeira. Entre a dimensão profana e a dimensão religiosa, compreendemos que Nossa Senhora da Boa Viagem quer trazer a unidade à nossa vila e à nossa vida. Com o Bispo Dom Nuno Isidro e com os nossos Pescadores, fomos até ao Mar na noite de sábado, lançando a coroa das flores pelos pescadores defuntos. No Domingo, além da Missa solene, tivemos a Procissão de tarde pela vila, passando junto ao extraordinário tapete na R. de Santo António e percorrendo as ruas, casas e janelas engalanadas, com muitas crianças e famílias acompanhando a passagem da Padroeira.
Na homilia destes dias de festa, fomos convidados a reparar no pequeno barco que Nossa Senhora da Boa Viagem traz na mão. Esse barco lembra o episódio nestes dias de agosto da chegada à costa algarvia de um pequeno barco de 5 metros, cheio de 38 migrantes marroquinos com mulheres e crianças. Não pretendendo avaliar a política migratória do nosso país, quis ainda assim desafiar todos a um exame ao coração, lembrando que aqueles migrantes são pessoas como nós, cheias de aflições e esperanças, criados à imagem e semelhança de Deus como nós. Cada um dos passageiros pagou cerca de 2500€ para arriscar fazer a viagem e pelas notícias sabemos que tragicamente 4 pessoas morreram no mar durante a viagem. Tudo isto pede a nossa compaixão e o nosso acolhimento com dignidade e a capacidade de lembrarmos que estamos todos no mesmo barco. Por estarmos todos no mesmo barco, somos então exortados a encontrar os caminhos da unidade e da paz, como a nossa Padroeira deseja. Isto será possível se seguirmos o caminho da empatia, do perdão e do diálogo. Maria era uma autêntica especialista nessa arte da empatia, capaz de “calçar os sapatos do outro” e acolher os seus sentimentos, como quando saiu apressadamente a visitar e cuidar da prima Isabel. Era também capaz de perdoar, esperando mais dos outros sem os rotular definitivamente, como quando desculpou o Filho perdido no Templo ou, noutras ocasiões, com aqueles apóstolos que tinham traído Jesus. Maria ensina-nos também a chave do diálogo, que passa pelo silêncio para ouvir primeiro e levar tudo à oração no coração, mas também pela capacidade de elogiar e agradecer, sem maldizer, mas fazendo correção fraterna quando necessário. Com estas virtudes da Senhora da Boa Viagem e a Sua intercessão, podemos ter legítima esperança de encontrar caminhos para a unidade e a paz.
O texto já vai longo e já estamos em preparativos para as festas de Fonte Boa dos Nabos! Pedimos a Nossa Senhora da Boa Viagem que interceda por nós, lembrando que estamos todos no mesmo barco, cheios de esperança de alcançar a unidade e a paz!
Um abraço amigo do Padre Tiago