Fr. Steve Grunow
World on fire, 5 de Dezembro de 2025  

No dia 6 de Dezembro, a Igreja celebra a Festa de São Nicolau. Santo que é reverenciado tanto pelas Igrejas Ortodoxas do Oriente como  pela Igreja Católica, e mesmo por algumas denominações protestantes. Ele é, igualmente, invocado como o santo padroeiro dos marinheiros, comerciantes, arqueiros, pugilistas, ladrões arrependidos, prostitutas reformadas, crianças (malcriadas e bem comportadas), farmacêuticos, penhoristas, pescadores e muito mais.

Os cristãos ortodoxos orientais conhecem o santo como «Nicolau o Taumaturgo», ou Nicolau, o Milagreiro. A tradição diz que os seus milagres incluiram salvar crianças de assassínios e de serem martirizadas por carniceiros malvados, resgatar jovens de uma vida de prostituição, multiplicar grãos em tempos de fome e guiar marinheiros em segurança até o porto, aparecendo em um anel de luz sobre o mastro do navio — tudo isso, além de inúmeras curas e intervenções milagrosas.

Há muitas coisas memoráveis sobre São Nicolau. A minha história favorita é o seu lendário encontro com Ário, um bispo ariano, no Concílio de Nicéia, que Nicolau agrediu. (É preciso lembrar que Ário causou grande confusão ao afirmar que Cristo era um ser divino inferior à  dividade de Deus Pai). Conta a história que Nicolau mais tarde pediu desculpas aos seus irmãos bispos pela sua conduta, mas insistiu que Ário estava errado na  sua interpretação sobre e as naturezas divina e humana de Cristo. O Concílio de Nicéia tomou o partido de Nicolau, não em termos da disputa, mas da ortodoxia sobre a compreensão da identidade de Cristo. 

A generosidade de São Nicolau é ritualmente reencenada todos os anos pelas crianças, que colocam os seus sapatos à porta na noite anterior ao dia da sua festa, para que possam descobrir os presentes deixados ali pelo santo.

No ano de 1087, as relíquias de São Nicolau foram «apropriadas» para guarda por marinheiros italianos e levadas do santuário do santo em Myra (localizado na Turquia) para Bari, uma cidade no sudeste da Itália. Na década de 1950, o relicário que continha os restos mortais do santo foi aberto e o seu conteúdo revelou um esqueleto quase intacto de um homem com cerca de 1,50 m de altura e o nariz partido. (Talvez Ário tenha conseguido dar um bom soco certeiro antes de Nicolau lhe ter dado uma sova.)

O governo da Turquia solicitou a devolução das relíquias para Myra, alegando que as circunstâncias pelas quais elas chegaram a Bari foram ilegais. Não sei qual é a situação atual dessa reclamação, mas acho que as relíquias devem permanecer em Bari até que as circunstâncias relativas à ilegalidade da «apropriação», alegada pela  Hagia Sophia  sejam incluídas nas negociações.

A generosidade de São Nicolau é ritualmente reencenada todos os anos pelas crianças, que colocam os seus sapatos na noite anterior ao dia da sua festa, para que possam descobrir os presentes deixados pelo santo, na manhã seguinte. As crianças com pés grandes ficam particularmente entusiasmadas e atentas a este costume, mas com o desenvolvimento dos cartões-presente, mesmo as crianças com pés pequenos agora aguardam ansiosamente a aparição do santo. Em alguns países europeus, uma versão fantasiada do santo — completa com mitra e báculo — faz a sua ronda levando presentes às crianças. No entanto, há um lado sombrio nessa visita, pois o santo fantasiado é acompanhado por uma pessoa vestida como um diabinho, pronto a punir as crianças indisciplinadas. Algumas crianças recebem um galho de madeira no sapato como aviso do que está por vir se o seu comportamento não mudar. Ou seja, que essas crianças, particularmente indisciplinadas, serão colocadas num grande saco e levadas para um destino desconhecido. 
A maneira como a graça e a retribuição se justapõem em tudo isto deve ser recebida pelas crianças como algo  fascinante. Se eu soubesse deste costume quando era criança, teria passado o dia 6 de dezembro escondido atrás de uma porta trancada.
Entretanto, a combinação da aversão protestante aos santos e do devaneio católico, juntamente com a ideologia secularista, criou uma versão mutante de São Nicolau, chamada de pai Natal.     

O Pai Natal não é um bispo, santo ou pessoa real, mas uma representação simbólica da troca anual de presentes de inverno, da cultura americana (eu usaria o termo «feriado» aqui, mas sou sensível ao facto de que a palavra é derivada de «dia santo» e temo ofender aqueles que se ofendem com a ideia de que existe algo sagrado ou santo além da experiência de se sentir ofendido). O Pai Natal traz presentes, como São Nicolau era formalmente autorizado a fazer, mas tem uma espécie de lista mágica que distingue as crianças travessas das bem comportadas, mas já não emprega um diabinho como assistente. Imagino que os duendes sejam mais baratos e as renas mais dóceis. A famosa narrativa cultural que explica a associação do Pai Natal à cultura consumista está bem representada num filme intitulado “Milagre na Rua 34”. Imagino como teria sido esse filme se o personagem interpretado por Natalie Wood tivesse descoberto que um dos funcionários da loja de departamentos Macys era, na verdade, um bispo grego do século IV. Isso sim seria um milagre!

Cada ano, por esta altura, ouço histórias que são verdadeiros ataques contra o Natal, o que implica da parte dos cristãos medidas de  resistência face à secularização de um dos dias mais sagrados do calendário litúrgico. A cultura popular organiza um festival anual com temas invernais que coincide com a celebração da Igreja do nascimento de Cristo e esforça-se  ao máximo em manter as celebrações seculares sem revelar a verdadeira razão de toda essa agitação. Na verdade, muito do que a cultura popular procura realizar desde o dia seguinte ao Halloween (quero dizer, o Dia de Ação de Graças) até 25 de dezembro é alimentado pela emanação de um fenómeno cultural inerentemente cristão — ou, mais especificamente, católico. De alguma forma, numa cultura tão influenciada pelas formas mais rígidas do protestantismo e do secularismo, a festa católica do Natal (Christ-Mass) ganhou grande destaque cultural.
Muitos ignoram, mas o Natal não era alvo de muitas atenções antes do século XIX, nem na Grã-Bretanha nem nos Estados Unidos, já que Oliver Cromwell, procurou erradicar esta celebração por causa do seu evidente «papismo».   Muitos dos que expressam actualmente uma aversão ao Natal são os herdeiros de Oliver Cromwell, com a única diferença de que as objeções deste estadista eram grosseiramente teológicas, enquanto as modermas formas de objeção são grosseiramente ideológicas. Charles Dickens fez muito para superar a persistente aversão cultural contra o Natal , criando  o  “conto de Natal” cuja a fantasia natalícia enche tantas pessoas de sentimentos de alegria e paz festivas .    

A secularização do Natal também é resultado de mais de um século de marketing inteligente e construção de marcas por parte dos comerciantes, que descobriram que esta celebração é uma das maiores fontes de lucros financeiros da história. Secularizar a ocasião faz sentido do ponto de vista comercial; permite que muitas pessoas que não se importam com o nascimento de Jesus de Nazaré compartilhem os benefícios de receber presentes e aproveitem todas as promoções e descontos. Se fosse apenas para os cristãos, a redução do mercado tornaria a celebração muito menos lucrativa, daí a estratégia consciente e deliberada de atenuar as especificidades cristãs da celebração.    
A verdadeira essência do Natal está enraizada nas celebrações no calendário litúrgicas, no culto e nas orações  da Igreja,nas quais os mistérios da salvação são revelados e relembrados entre os fiéis. Este calendário já foi a base da cultura popular dos nossos antepassados europeus. O protestantismo rejeitou a maior parte deste calendário e as festividades que acompanhavam a sua prática, considerando tudo isso como estando vinculado à «lei» e demasiado pagão para a sua sensibilidade. Lembro-me de que, há alguns anos, uma enorme igreja suburbana bastante proeminente anunciou que estaria fechada no Natal. Seguiram-se relatos de indignação, mas eu encolhi os ombros e pensei que eles estavam apenas a ser bons protestantes.
O secularismo completou o trabalho dos reformadores protestantes, eliminando ainda mais as comemorações «religiosas» do calendário e insistindo que as festividades públicas da Igreja fossem isoladas da vista do público, sendo realizadas a portas fechadas. Curiosamente, as festividades de 25 de dezembro perduraram, embora pareça que a influência do Natal na imaginação cultural se torne cada vez mais tênue em cada ano que passa.

Liturgicamente, a data do Natal é calculada nove meses a partir da Solenidade da Anunciação,celebrada a  25 de Março, que comemora a encarnação de Cristo no ventre de sua mãe. É por causa desta antiga festa, ainda mais antiga do que as celebrações litúrgicas e culturais associadas ao Natal, que a Igreja celebra o nascimento de Cristo no dia 25 de Dezembro. O calendário litúrgico também inclui um dia em honra de São Nicolau, o Taumaturgo, uma pessoa real cujo amor por Cristo se tornou o sentido e o propósito da sua existência.

Como católicos, recordamos Nicolau não apenas pelas suas obras poderosas, mas também pela sua participação contínua na vida da Igreja como membro da comunhão dos santos. Através da nossa participação na Eucaristia, celebramos a sua vida e testemunho, enquanto ele celebra connosco desde o seu lugar no céu; juntos adoramos o Senhor que se encarnou no ventre da Virgem Maria. 

Existe, portanto, um espírito de São Nicolau que transcende as fronteiras do céu e da terra, um espírito maior do que o próprio Nicolau; pois é verdadeiramente o Espírito Santo, enviado por Cristo, que todos os santos trazem ao mundo. O Espírito Santo lembra-nos que, embora muitos na nossa cultura travem uma guerra contra o Natal, sabemos que a vitória de Cristo já foi alcançada, e o seu triunfo é evidente não só no testemunho de santos como S. Nicolau, mas também na disposição, em todas as épocas,  dos seguidores de Cristo, de proclamar com ousadia, e até mesmo com desafio, que a criança nascida em Belém é verdadeiramente Cristo, o Senhor.

Tradução livre de
Maria do Rosário H. Mc Kinney


Créditos imagem: Paulus Editora Brasil