Dr. Tod Worner
Word on fire, 10 de Setembro de 2025
“Vamos concentrar-nos no que os gregos escreveram há tantos anos: domar a selvageria do homem e tornar suave a vida neste mundo”.
— Robert F. Kennedy, sobre o assassinato de Martin Luther King Jr.
Charlie Kirk está morto.
Ativista político conservador, cristão evangélico, marido e pai, ele foi cofundador da Turning Point USA, e em representação desta instituição estava num debate público quando foi baleado e morto na Universidade de Utah Valley. Ele tinha trinta e um anos.
Para ser sincero, eu não tinha o hábito de ouvir Charlie Kirk. Escutava as suas entrevistas de vez em quando, na televisão ou num podcast. Obviamente, ele era inteligente, apaixonado e não tinha medo de se envolver na balburdia da praça pública.
Mas por que foi morto?
Como católicos, acreditamos que existe uma verdade. Ela é duradoura e inquestionável. Mas também acreditamos que cada pessoa é livre de escolher se deseja seguir essa verdade ou não. Cada um de nós é filho de Deus, imbuído de uma dignidade inalienável e, com ela, do livre arbítrio. O livre arbítrio dá-nos a liberdade de buscar e chegar à verdade — ou simplesmente de nos afasta-mos dela. Podemos escolher a nossa chegada final ao céu ou a nossa descida definitiva ao inferno. Esta é a maior aposta de Deus.
As nossas escolhas são radicais, mas são nossas.
Quando alguém disparou um tiro sobre Charlie Kirk, esse alguém tirou-lhe a possibilidade de escolha. Não importa se Charlie era um conservador radical ou um liberal radical, um católico devoto ou um ateu convicto. O que importa é que alguém disse: «Não podes ouvir isto... porque eu não quero que ouças isto. Eu sou o árbitro de que tu escutas, o que consomes, o que discernes, porque eu sei que assim é melhor para ti”.
Este é o espírito sombrio dos manifestantes ideologicamente cegos que impedem eventos, intimidam multidões, abafam vozes e assassinam oradores. E fazem isso porque acreditam que usar a sua liberdade para restringir a dos outros — a qualquer preço, mesmo que seja assassinato — é bom para as pessoas.
A ideologia é uma religião secular distorcida que leva os adeptos a assassinar em nome de uma causa.
No seu livro “God in the Dock: Essays on Theology and Ethics, C. S. Lewis advertiu:
“De todas as tiranias, a tirania exercida sinceramente para o bem das suas vítimas pode ser a mais opressiva. Seria melhor viver sob a alçada de requintados ladrões do que sob a égide de omnipotentes ideológicos falsos moralistas. [...] [Aqueles] que nos atormentam que para o nosso próprio bem irão atormentar-nos sem fim, pois fazem-no com a aprovação da sua própria consciência”.
Este assassinato é um ato de totalitarismo descarado. Este homicídio é uma medida de censura suprema. No “Arquipélago de Gulag”, Aleksandr Solzhenitsyn fez uma exposição fascinante do que era o inferno do sistema prisional da União Soviética e explicou:
“Para fazer o mal, um ser humano deve, antes de tudo, acreditar que o que está a fazer é bom, ou então que é um ato bem ponderado e em conformidade com a lei natural”. Felizmente, está na natureza do ser humano procurar uma justificativa para as suas ações. As justificaçoes de Macbeth eram fracas — e a sua consciência devorou-o. Sim, até mesmo Lago era um cordeirinho diante dos omnipotentes falsos ideológicos moralistas. A imaginação e a força espiritual dos malfeitores de Shakespeare não foram mais do que uma dúzia de cadáveres porque eles não seguiam nenhuma ideologia”.
A ideologia é uma religião secular distorcida que leva os adeptos a assassinar em nome de uma causa. E com uma consciência deformada, o discípulo da ideologia não apenas escapa da autocondenação, mas se deleita em uma autocomplacência descarada. As noções consagradas pelo tempo de debate animado, liberdade de expressão e direito de cada indivíduo de decidir o seu próprio caminho são consideradas irrelevantes e destruídas com um tiro altivo. «Eles odeiam o seu inimigo», disse certa vez um amigo sábio, «mais do que amam a verdade».
E o apoio à violência ideológica está a crescer. A Fundação para os Direitos Individuais e a Expressão (FIRE) divulgou recentemente uma pesquisa assustadora com 68.000 estudantes universitários de 250 universidades diferentes, na qual 34% consideravam aceitável o uso da violência para impedir um discurso num Campus universitário. O que é um nível recorde.
O que está errado connosco?
O nosso país foi fundado com base numa Declaração de Direitos que garantia a liberdade de expressão. Isso significa que as Leis de Estrangeiros e de Motins de 1798, que silenciaram e perseguiram os críticos da administração de John Adams, viriam a expirar em ignomínia e derrotariam Adams nas eleições de 1800. Isso significa que a troca livre e acalorada dos debates Lincoln-Douglas de 1858 viria a debater o tema explosivo da escravatura, elegeria Lincoln como presidente em 1860 e levaria à abolição da escravatura (mesmo ao custo de uma guerra civil). Isso significa que Susan B. Anthony pôde falar publicamente antes do seu julgamento em 1872, perguntando: «É crime um cidadão votar?» E isso significa que, cem anos depois, Martin Luther King Jr. pôde dizer a uma nação dividida: «Eu tenho um sonho». A liberdade de expressão é a raiz da aprendizagem e é indispensável para a formação da nossa consciência. É a ruína dos ditadores e a inimiga do pensamento politicamente correcto.
“Não pode ouvir isto... porque eu não quero que ouça isto».
Charlie Kirk não precisava de morrer.
Se alguém não estava de acordo com ele, esse é um direito inquestionável. Mas se discorda, discorda honestamente. Discordar como um adulto, não como uma criança furiosa. Discorda como um concidadão, não como um totalitário covarde. Por todos os meios, pode fazer um discurso contrário, escrever um ensaio dissidente, financiar uma causa alternativa, votar num candidato militante ou simplesmente abanar a cabeça e ir embora. É preciso usar a lógica, não a violência. Usar a organização, não o caos. Usar a vida, não a morte. Usar o seu cérebro, não o seu dedo no gatilho. Como Evelyn Beatrice Hall insistiu: «Discordo do que diz, mas defenderei até a morte o seu direito a dizê-lo.» A raiva e a violência não são argumentos. E talvez — apenas talvez —se for civilizado na sua discordância e correto no seu raciocínio, não terá ganho a perdição, mas sim o amadurecimento da sua alma.
Na noite de 4 de abril de 1968, Martin Luther King Jr. foi assassinado. O candidato presidencial Robert F. Kennedy cancelou o seu discurso, saiu para as ruas agitadas de Indianápolis e disse calmamente:
“O meu poeta favorito era Ésquilo. Ele escreveu: «Durante o sono, a dor que não se pode esquecer cai gota a gota sobre o coração até que, no nosso próprio desespero, contra a nossa vontade, surge a sabedoria através da imensa graça de Deus.» O que precisamos nos Estados Unidos não é divisão; o que precisamos nos Estados Unidos não é ódio; o que precisamos nos Estados Unidos não é violência ou ilegalidade; mas amor e sabedoria, e compaixão uns pelos outros, e um sentimento de justiça para com aqueles que ainda sofrem dentro do nosso país, sejam eles brancos ou negros. Por isso, peço-vos esta noite que voltem para casa e rezem pela família de Martin Luther King, é verdade, mas, mais importante ainda, que rezem pelo nosso próprio país, que todos nós amamos — uma oração pela compreensão e pela compaixão de que falei.
Quem somos nós?
Em que nos estamos a tornar?
Rezem, meus amigos, pela misericórdia de Deus e ajam por um mundo melhor.
Charlie Kirk e todas as outras vítimas da violência política, requiescat in pace.
Tradução livre de Maria do Rosário H. Mckinney