Fr. Damian Ference
Word on fire, 21 de abril de 2025  

No dia em que o Cardeal Jorge Mario Bergoglio foi eleito Papa, estava eu no décimo ano de sacerdócio e lembro-me bem. No final da reunião mensal com o meu diretor espiritual, a sua secretária bateu à porta, pediu desculpa por interromper e informou-nos: “Temos um Papa!” O meu diretor dirigiu-se para a sua secretária, ligou o seu computadore à transmissão em direto e ficámos sentados juntos à espera do anúncio. Primeiro veio o nome: Francisco. Depois veio o homem, de pé na varanda histórica da Basílica de S. Pedro, envergando uma batina branca que não lhe assentava bem. Levantou a mão direita e acenou, mas não como um homem que acabara de ser nomeado o Vigário de Cristo na Terra; antes, como o seu avô lhe teria acenado quando saísse com o carro da garagem depois de lhe ter feito uma visita. Olhou para a Praça de S. Pedro durante um tempo que pareceu interminável - apenas a olhar - até que finalmente disse: “Fratelli e sorelle, buona sera! (“Irmãos e irmãs, boa noite!”).  

Este papa jesuíta - que escolheu o seu novo nome em homenagem ao grande reformador de Assis, que abraçou a pobreza e a simplicidade e promoveu um modo de vida piedoso, evangélico, fraterno e encarnado - deu algumas pistas da varanda sobre o que poderíamos esperar do seu pontificado. Em primeiro lugar, embora soubesse obviamente que era o Papa, referiu-se a si próprio como o bispo de Roma e à sua missão de evangelizar “esta belíssima cidade”. Explicou aos fiéis que “fazemos esta viagem juntos - bispo e povo”. Depois, descreveu esta aventura da Igreja como uma aventura de “fraternidade, amor e confiança”. E antes de oferecer a sua bênção ao povo, pediu-lhe que pedisse ao Senhor que o abençoasse, fez silêncio; e depois inclinou a cabeça. De seguida, colocou uma bela estola bordada e abençoou os fiéis, mas logo após a bênção, tirou a estola, beijou-a e devolveu-a ao seu mestre de cerimónias. Em breve veríamos que estes primeiros gestos e palavras no balcão de S. Pedro começavam a tomar corpo em três formas particulares, que constituiriam um desafio profético ao meu sacerdócio.  

Não sou perfeito em nenhuma destas coisas, mas sou melhor do que era antes de Francisco se ter tornado Papa.  

Simplicidade e solidariedade  

O Papa Francisco decidiu não viver no Palácio do Vaticano, como os seus antecessores, mas na Casa Santa Marta, num ambiente mais simples e comunitário. De igual modo, anunciou que não ficaria em Castel Gandolfo durante os meses de verão, o que constituiria mais uma quebra na recente tradição papal. Em vez disso, viveria e trabalharia no Vaticano durante todo o ano, em sinal de solidariedade com a maioria das pessoas que não têm o luxo de ter uma casa de verão. E por falar em casa, transformou uma estação de correios na Praça de S. Pedro num local onde os sem-abrigo de Roma podem tomar banho, comer e até receber medicamentos. (Não é por coincidência que, quando se passa hoje em dia pela fila de segurança a caminho da Basílica de São Pedro, se vê a Igreja a participar ativamente nas obras de misericórdia corporais). A simplicidade do Papa Francisco também afectou a sua escolha de vestes litúrgicas, que não sendo feias, definitivamente não são ostensivas.  

O mesmo aconteceu com a suas escolhas nas viagens. Eu estava com os meus seminaristas em Washington, DC, quando ele canonizou Junípero Serra, e lembro-me de estar no relvado do “Capuchin College” à espera que a sua comitiva passasse, depois da Missa. Primeiro veio uma longa fila de carros da polícia e motas, seguidos por alguns SUV, (Veículo Utilitário Desportivo)  pretos muito grandes com vidros fumados. Mas o Papa Francisco não estava num SUV. Antes, ia num pequeno Fiat preto, e quase não o vi quando passou, porque o carro era extremamente pequeno quando comparado com os outros, o que foi engraçado. Era como se ele estivesse a fazer troça da cultura de consumo e a convidar-nos a todos a tornarmo-nos um pouco mais parcos. O que resultou.

Antes do Papa Francisco, não tinha reflectido o suficiente sobre o ponto de vista dos padres que fazem férias de sonho, comem em restaurantes luxuosos, voam em primeira classe, conduzem carros de luxo ou vivem em opulentos reitoriados. É certo que a maior parte dos padres diocesanos não são culpados de tais excessos materiais, e há algo muito positivo em usufruir de uma pausa restauradora do ministério e uma boa refeição, mas o testemunho do Papa Francisco fez-me pensar duas vezes sobre a forma como eu gastava o dinheiro, especialmente comigo próprio. Ultimamente, tenho conhecido alguns pastores que, tendo planeado construir ou remodelaras as suas instalações, simplificaram estes planos por causa do testemunho de Francisco. Como americanos, pensamos muitas vezes que, se trabalharmos muito, teremos o que merecemos e poderemos fazer o que quisermos com o nosso dinheiro. O Papa Francisco encorajou-me a reconsiderar este tipo de pensamento, a estar mais atento ao poder do meu testemunho sacerdotal e a não esquecer a minha responsabilidade para com aqueles que não têm meios.  

Evangelização  

O Papa Francisco não se cansou de pregar e ensinar sobre o encontro, o acompanhamento e a realização do caminho de fé em conjunto, como irmãos e irmãs em direção ao Pai. Serei o primeiro a admitir que, como um GenXer tive uma educação religiosa dos anos 80 muito baseada em trabalhos de bricolagem, sentimentos e no livro de canções Hi God ! Mas quando na realidade li o que o Santo Padre tinha escrito, comecei a compreender: Disse: “Convido todos os cristãos, em toda a parte, neste preciso momento, a um renovado encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a uma disponibilidade para se deixarem encontrar por Ele; peço-vos a todos que o façais sem falta, todos os dias” (Evangelii Gaudium 3). O método de evangelização do Papa Francisco baseia-se na Encarnação e é inteiramente bíblico. Deus tornou-se um de nós em tudo, exceto no pecado; Jesus encontrou-se connosco, amou-nos, morreu e ressuscitou por nós e mostrou-nos o caminho para o Pai pelo poder do Espírito Santo. Por isso, os cristãos católicos evangelizam melhor imitando o Filho: primeiro, encontrando as pessoas onde elas estão e amando-as aí. Depois, tendo desenvolvido uma relação fraterna enraizada na confiança, podem corajosamente proclamar o Evangelho em toda a sua plenitude através das suas vidas. Mas - e aqui está a parte importante - este tipo de evangelização só é possível se o evangelizador estiver a ser renovado diariamente por um encontro pessoal com Jesus Cristo.
O Papa Francisco recordou-me que preciso de ser renovado por um encontro pessoal com Jesus todos os dias - e não apenas seguir os movimentos do que tem de ser feito, o que pode ser uma coisa fácil para um padre. Recordar a misericórdia com que Jesus me encontra todos os dias ajudou-me a ser um melhor ouvinte, a ser mais lento a julgar os outros e a mostrar mais bondade e misericórdia para com aqueles de quem discordo. Não sou perfeito em nenhuma destas coisas, mas sou melhor do que era antes de Francisco se tornar Papa.  

A vida de piedade  

O Papa Francisco era um homem de devoção popular, sobretudo a Nossa Senhora e a São José. Antes de sair de Roma para qualquer viagem, fazia sempre questão de visitar o seu altar preferido na Basílica de Santa Maria Maior para rezar - deixava mesmo um ramo de flores no altar para ela. Além disso, ordenou que o nome de São José fosse acrescentado a cada oração eucarística e dedicou um ano litúrgico a São José. O Papa Francisco também encorajou os fiéis a rezar frequentemente com um crucifixo e, durante o auge da pandemia da COVID-19 em Itália, mandou trazer para a Praça de São Pedro o crucifixo milagroso de San Marcello e o seu ícone favorito de Maria Maior, onde rezou diante de cada imagem e depois ofereceu uma bênção eucarística memorável a toda a cidade. Por fim, o Papa Francisco levou o diabo a sério e avisou-nos constantemente sobre os seus planos perversos e instruiu-nos severamente para nunca conversarmos com ele.

Quando eu estava no seminário, era dada uma grande ênfase ao lugar privilegiado da liturgia na vida cristã, mas muitas vezes em detrimento da prática da piedade popular - um erro lamentável. O Papa Francisco sempre encorajou os fiéis a aprofundar a sua relação pessoal com a Santíssima Trindade e com os santos e não via a devoção popular como uma ameaça à primazia da liturgia, mas, antes, como uma descrição mais completa do que significa ser católico. As suas homilias (especialmente as diárias) eram profundas, incisivas e acessíveis. Usou exemplos sugestivos como, (por exemplo, “não reze como um papagaio”) e encorajou actos de fé simples (por exemplo, beijar um crucifixo), o que me desafiou a manter a profundidade a par com a simplicidade. O Papa Francisco encorajou-me a promover as práticas piadosas entre os fiéis e a evitar o erro presunçoso de equiparar a piedade simples a uma fé superficial.

Os estudantes e os desportistas tendem a recordar os professores e os treinadores que os desafiaram. Suponho que, quanto mais nos afastarmos deste momento da sua morte, mais as pessoas tomarão consciência de que o Papa Francisco foi um bom Papa, mesmo que não se tenham apercebido disso na altura. Normalmente é assim que acontece com um profeta.  

Tradução livre de 
Maria do Rosário H. Mckinney