Queridos amigos,
Há uns vinte anos, o Miguel chegou à reunião da nossa equipa de jovens e fez-nos uma proposta louca: «e se escrevêssemos a Bíblia inteira à mão?» Achei a ideia engraçada e atribuímos partes da Bíblia para cada um. Calhou-me a carta de S. Paulo aos Filipenses. Logo escrevi o primeiro capítulo. Na reunião do mês seguinte, o Miguel perguntou como estavam as nossas “escrituras”… e eu admiti que só tinha escrito aquele capítulo… ainda assim, mais do que todos os outros amigos da equipa, que não escreveram nada! Então o Miguel decidiu continuar sozinho aquela empreitada, copiando e escrevendo uma hora por dia, durante 4 anos! Que paciência de santo! Mais tarde, já a frequentar o Seminário de S. José de Caparide, eu tive oportunidade de ler a Bíblia inteira durante 9 meses, no ano propedêutico. Foi uma experiência marcante e exigente… muitas vezes lutei contra o sono nessa leitura diária!
Vem isto a propósito do podcast +365: trata-se de uma iniciativa do Movimento das Equipas de Jovens de Nossa Senhora, que pretende dar a conhecer a Bíblia inteira ao longo de um ano, através da escuta da leitura dos textos bíblicos e de um breve comentário teológico-espiritual realizado por vários padres. O podcast está disponível no Spotify e Apple Podcast. É uma proposta arrojada que se deve, antes de mais, ao reconhecimento de que a Palavra de Deus é «viva e eficaz, mais penetrante que uma faca de dois gumes». De facto, acreditamos verdadeiramente num Deus que nos ama e que quer falar connosco através da Palavra: para Se dar a conhecer, para nos dizer quem nós somos e para nos indicar a Sua vontade, o que Ele quer de nós. Esta iniciativa do podcast +365 tem ainda uma segunda razão: é que há um profundo desconhecimento da Palavra de Deus entre nós, católicos. É preciso admitir que os nossos irmãos cristãos protestantes têm uma maior cultura bíblica e que nós, católicos, somos ainda muito ignorantes. Como dizia S. Jerónimo, «a ignorância da Escritura é ignorância de Cristo». Este podcast, pelo seu formato áudio e pela sua flexibilidade, pode ser uma útil ferramenta de catequese e aprendizagem. Por fim, dada a dificuldade de interpretação de alguns dos textos bíblicos, é bom fomentar a sua leitura e compreensão em comunidade à luz da Tradição da Igreja, segundo não apenas o método literário alegórico, ou o método histórico-crítico, mas também o método canónico, descobrindo a relação entre diversas passagens bíblicas que se iluminam mutuamente.
A Bíblia é composta por 73 livros, dos quais 46 formam o Antigo Testamento e 27 formam o Novo Testamento. Para alguns cristãos, existe a tentação de desvalorizar os textos do Antigo Testamento, como se não fossem mais necessários, dada a plena Revelação final em Jesus Cristo. Porém, só compreendemos melhor a Pessoa de Jesus, se tivermos presente a história anterior da Revelação de Deus ao Povo de Israel, a partir de Abraão, Isaac e Jacob. Mais, toda a expectativa do Povo de Israel relativamente ao Messias, prometido e anunciado pela pregação dos Profetas, ajuda a compreender certos comportamentos de Jesus e reações favoráveis ou adversas que Ele experimentou da parte dos seus contemporâneos.
Outros leitores da Bíblia tendem a ficar escandalizados com a violência de certos textos – por exemplo, a batalha de David contra Golias, relatada no Primeiro Livro de Samuel, capítulo 17 – ou com alguma imprecisão científica – por exemplo os relatos da Criação no Livro do Génesis, capítulo 1-3 – ou ainda com certos comportamentos imorais – como a infidelidade do Rei David com a mulher de Úrias, relatada no Segundo Livro de Samuel, capítulo 11. Para vencer estas dificuldades, é preciso ter presente que «a revelação bíblica está profundamente radicada na história» (cf. Verbum Domini, 42), com as luzes e sombras da humanidade, capaz de coisas extraordinárias e também das maiores atrocidades, revelando-se aí precisamente a pedagogia e a misericórdia de Deus connosco. Além disso, importa ler estes textos à luz da Tradição da Igreja, pois, como diz S. Pedro, «ninguém pode interpretar por si mesmo uma profecia da Escritura» (cf. 2Pe 1, 20). Se foi a Igreja, pela ação do Espírito Santo, que definiu o Cânone Bíblico no Concílio de Trento no séc. XVI, apresentando esses 73 livros, cabe também à Igreja iluminar-nos no entendimento da Palavra de Deus. Como dizia o Papa Bento XVI, «a Bíblia foi escrita pelo Povo de Deus e para o Povo de Deus, sob a inspiração do Espírito Santo. Só nesta comunhão com o Povo de Deus podemos realmente entrar com o "nós" no núcleo da verdade que o próprio Deus nos quer dizer.» (Catequese sobre S. Jerónimo, Audiência Geral, 14 novembro 2007).
Porém, devo alertar-vos que ler a Bíblia é um risco. Recordo, a esse propósito, o testemunho de Zita Seabra, antiga deputada militante do partido comunista, que visitou a nossa paróquia há uns anos e nos contou a sua decisão de ler a Bíblia: tudo começou com uma viagem a Roma, quando ela visitou várias igrejas e se deparou com tantos quadros e obras de arte sacra referentes a episódios bíblicos que desconhecia. Nesse momento, envergonhada pela sua ignorância bíblica, a Zita tomou a firme decisão de começar a ler a Bíblia, apenas com a curiosidade de quem quer saber mais. Porém, progressivamente se convenceu da Verdade do Evangelho. Assim foi a história da sua conversão, o seu encontro com Cristo vivo. Sim, ler a Bíblia é um risco!
Talvez a leitura da Bíblia nos ajude também a olhar com outros olhos para toda a situação política nacional e internacional. Em tempos tão confusos, entre eleições presidenciais em Portugal e conflitos tão sérios a nível mundial, sentimos como “a primeira vítima da guerra é a verdade” e experimentamos alguma desorientação, sem saber bem em quem confiar. Precisamos de ter presente que em Deus podemos sempre confiar e que Ele é o Senhor da História. Como disse Jesus: «Anunciei-vos estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo, tereis tribulações; mas, tende confiança: Eu já venci o mundo!» (cf. Jo 16, 33).
Este podcast será uma boa proposta para 2026. Vamos a isso?
Um abraço amigo do padre Tiago
ps – No dia 16 janeiro, recebemos a visita do Eder, o nosso herói da final do Euro-2016. Recebemo-lo com a transmissão do seu golo, que comemorámos como se fosse a primeira vez! Ele veio ao Ca’Fé do Salão (aberto sempre à 6ª feira à noite), para conversar com crianças, jovens e famílias sobre os altos e baixos da sua vida e da sua carreira. Contou-nos como a fé foi tão importante para se levantar nos momentos difíceis porque ao rezar e falar com Deus, ele sabia que não estava sozinho. Obrigado, Eder!
ps 2 – Enquanto escrevo, estamos a comemorar as festas de S. Sebastião e S. Vicente, “claro e quente”. Precisamos da ajuda de todos para preservar as belas tradições da Ericeira!
ps 3 – Vamos receber os jovens da Universidade Católica da Missão País na Paróquia da Carvoeira, de 24 a 31 janeiro. Que o seu entusiasmo possa contagiar-nos a levar a paz de Cristo a todos!