Que tipo de liberdade escolheu?
Richard Clements
“Word on fire”, 17 de junho de 2026
Um dos mais fundamentais (e mais decisivos) tipos de escolha que devemos fazer na vida é entre duas conceções de liberdade: a liberdade entendida como autonomia total (a capacidade de fazer tudo o que eu quiser, o mais livre possível de quaisquer limitações ou restrições externas) e a liberdade colocada a serviço de Deus e do próximo, que Hans Urs von Balthasar descreveu de forma eloquente como a “liberdade da entrega de si na obediência da fé ao amor livre de Deus”.
Em suma, trata-se da escolha entre uma liberdade centrada em si mesmo e uma liberdade centrada em Deus. A decisão que tomamos a esse respeito exerce um impacto incalculável sobre a nossa felicidade, a nossa realização pessoal o significado e propósito nesta vida terrena, bem como o nosso destino eterno. Desde tempos imemoriais, nós, seres humanos, temos preferido uma liberdade centrada em nós mesmos, a uma liberdade centrada em Deus (Gn 3,1–24). Contudo, a ideia de que a verdadeira liberdade consiste na autonomia pessoal absoluta tornou-se muito mais difundida durante o chamado Iluminismo, quando alguns filósofos e outros pensadores daquele período rejeitaram a fé religiosa e promoveram, nos seus escritos e reflexões, uma “focalização no sujeito”. Este virar-se para o sujeito” implica entre outras coisas, um foco maior na pessoa individual e nos meios concretos para alcançar a felicidade e a realização pessoal já nesta vida, em vez de esperar por uma vida futura prometida por algumas religiões, especialmente o cristianismo. A liberdade egocêntrica seduziu muitas pessoas porque parecia oferecer a libertação das restrições morais e sociais que julgavam limitar a busca da satisfação dos seus próprios desejos. A partir do Iluminismo, houve outros períodos em que essa conceção de liberdade ganhou novo impulso. Um exemplo são os chamados "Loucos Anos 20", quando algumas pessoas reagiram ao horror e à destruição sem precedentes da Primeira Guerra Mundial, com sentimentos de niilismo e desespero e, como consequência, passaram a rejeitar a fé religiosa e a moral tradicional.
Escolher uma liberdade centrada em si mesmo é escolher ser muito menos do que somos capazes de ser e muito menos do que Deus quis que fôssemos.
Depois vieram, naturalmente, os anos sessenta. A revolução sexual, o surgimento de uma psicologia popular amplamente centrada no indivíduo (com slogans como "Cuide primeiro de si mesmo") e a explosão do marketing e da publicidade em massa passaram a apresentar a satisfação dos desejos pessoais como a chave para a felicidade. Essa noção de liberdade como autonomia absoluta do indivíduo encontrou talvez a sua expressão mais famosa numa passagem do voto redigido pelo juiz Anthony Kennedy, da Suprema Corte dos Estados Unidos, no caso Planned Parenthood v. Casey:
"No cerne da liberdade está o direito de cada pessoa a definir o seu próprio conceito de existência, de significado, de universo e do mistério da vida humana." Kennedy escreveu essas palavras em 1992. No entanto, essa visão da liberdade e da vida humana é essencialmente a mesma — e tão profundamente equivocada quanto — a adotada por muitas gerações anteriores, inclusive pelos nossos primeiros ancestrais. Gostamos de acreditar que somos mais "esclarecidos" do que aqueles que nos precederam, mas, em aspetos muito relevantes, não o somos.
Por que deveríamos escolher uma liberdade centrada em Deus em vez de uma liberdade centrada em nós mesmos, quando somos constantemente bombardeados por mensagens que apresentam o individualismo como o caminho para a felicidade?
Em primeiro lugar, por uma razão pragmática: uma liberdade finita, voltada apenas para si mesma, jamais será suficiente para nos satisfazer, por mais que influenciadores, anunciantes ou apresentadores de podcasts afirmem o contrário. O nosso desejo de liberdade, assim como muitos de nossos anseios mais profundos, são infinitos, sem limites. Somente uma liberdade infinita pode corresponder a esse desejo, e essa liberdade infinita encontra-se unicamente em Deus.
O cardeal Joseph Ratzinger (mais tarde Papa Bento XVI) expressou essa verdade de maneira memorável: «Se o homem quer ser livre, deve ser "como Deus". O desejo de ser como Deus é o impulso interior de todos os programas humanos de libertação. Como o anseio pela liberdade está enraizado no próprio ser do homem, desde o início ele procura tornar-se "como Deus". De fato, qualquer coisa inferior a isso acaba por ser insuficiente para ele... Toda libertação do homem que não o conduza à participação na vida divina trai o homem, trai esse seu anseio sem limites.»
Esta consideração conduz-nos a uma razão ainda mais profunda — ontológica e teológica — para escolher a liberdade centrada em Deus em vez da liberdade centrada em nós mesmos. Fomos criados para a liberdade infinita de Deus. O nosso desejo de liberdade é infinito porque fomos criados para participar eternamente da liberdade infinita de Deus. Somente nessa liberdade encontraremos a nossa realização plena.
O amor que se doa é o caminho para a liberdade última, a forma mais profunda de liberdade. Escolher uma liberdade egocêntrica é optar por ser muito menos do que somos chamados a ser e muito menos do que Deus desejou para nós. Quando nos alinhamos à liberdade divina, alinhamo-nos à plenitude da vida e ao coração do próprio Ser. Isso porque a liberdade infinita de Deus é idêntica à sua própria essência: o amor que se doa.
A nossa liberdade finita encontra a sua realização suprema ao entrar na dinâmica infinita do amor oblativo de Deus. O amor que se doa é o caminho para a liberdade plena — a forma mais profunda de liberdade.
"Nada é tão livre quanto o amor; fora do amor, toda pretensa liberdade não passa de ilusão... O amor torna-nos livres quando é desinteressado; e ele é desinteressado quando está disposto a sacrificar o prazer, a vantagem e a independência pelo bem da pessoa amada."
A liberdade egocêntrica — a liberdade concebida como a capacidade de fazer o que se quer — deixa a pessoa à mercê dos seus impulsos egoístas, escravizada por esses desejos, em vez de a libertar verdadeiramente. Como escreveu Balthasar:
«Somente aquele que escapa da prisão do seu próprio eu é livre.»
Escolher a liberdade centrada em Deus — uma liberdade que se coloca a serviço de Deus e do próximo — é escolher a liberdade infinita do amor que se entrega.
Quando usamos nossa liberdade finita para escolher a liberdade infinita de Deus e a sua vontade (que é sempre amor), caminhamos para a liberdade absoluta, a felicidade plena e a vida eterna em comunhão com Deus:
«A escolha do amado e da sua vontade, uma escolha feita por amor puro, incondicional, no mais franco e ilimitado "sim" (cf. 2 Cor 1,18-20), quando o Amado é Deus, constitui uma elevação à liberdade absoluta... e tudo é coroado de forma extasiante quando essa escolha pode ser a resposta ao facto de já se termos sido escolhidos no amor; então, o mútuo entregar-se um ao outro é já a própria eternidade.»
Tradução livre
Maria do Rosário Homem Mckinney