Primeira Encíclica do Papa Leão XIV: ideias -chave da Magnifica Humanitas

Primeira Encíclica do Papa Leão XIV: ideias -chave da "Magnifica Humanitas"
Richard DeClue
“Word on fire”, 26 de Maio de 2026


Como era de esperar, a primeira encíclica do Papa Leão XIV insere-se na extensa lista de documentos papais sobre a doutrina social católica na linhagem da Rerum Novarum de seu homônimo pontifício. Essa encíclica de Leão XIII tratava das novas condições sociais e econômicas trazidas pela Revolução Industrial. Magnifica Humanitatis (Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana no Tempo da Inteligência Artificial) considera o recente crescimento da tecnologia — especialmente o desenvolvimento da inteligência artificial — como uma revolução digital com as suas próprias promessas e perigos, que igualmente precisam de ser enfrentados para o bem de toda a humanidade. Magnifica Humanitas foi assinada em 15 de maio de 2026, em honra ao 135º aniversário da Rerum Novarum, promulgada em 15 de maio de 1861. 

O novo documento, que só foi divulgado ao público em 25 de maio, é composto de uma introdução, cinco capítulos e uma conclusão. Seguindo a prática usual neste tipo de documentos, contém seções numeradas (ou  parágrafos) os quais utilizaremos como citações entre parênteses. Este artigo fornecerá um resumo dos principais ideias-chave do documento, que possui quase 38 mil palavras e cerca de 80 páginas. 

Para enfrentar as novas tecnologias que estão a mudar o nosso mundo, o Santo Padre apela a um esforço colaborativo entre a Igreja, os governos e todas as pessoas de boa vontade. Embora a Igreja não substitua a esfera própria da política, ela, no entanto, “participa ativamente no processo pelo qual a sociedade cresce e se organiza, oferecendo a sua própria contribuição para a criação de uma sociedade mais justa e fraterna” (19).

Leão XIV utiliza duas imagens bíblicas contrastantes para ilustrar a encruzilhada que a humanidade agora enfrenta com o advento de tecnologias como a inteligência artificial. A primeira imagem é negativa e corresponde à Torre de Babel. A segunda, é positiva, trata-se da reconstrução do Templo em Jerusalém, após o Exílio Babilônico. A primeira foi um projeto realizado por orgulho e por uma enfatuada autossuficiência que, no fim, levou à rutura da comunicação e à divisão social (7). Em contraste, a segunda foi feita de forma colegial e conduziu à unidade social. Neemias “reuniu as famílias, atribuiu a cada uma parte do muro a ser reconstruído, ouviu suas preocupações, coordenou seus esforços e enfrentou qualquer tipo de oposição” (8). Cada membro da sociedade tinha o seu papel a desempenhar e a oportunidade de expressar as suas preocupações. Além disso, Deus estava no centro do empreendimento. A segunda imagem é o exemplo que deve ser seguido. 

Proteger a humanidade contra eventuais ataques à sua dignidade pressupõe o desenvolvimento espiritual de cada um de nós. 

Logo no início, o Papa Leão reconhece que a IA não é intrinsecamente má. Pelo contrário, ela possui benefícios potenciais. Contudo, como todas as tecnologias precisa de ser orientada para o bem, caso contrário poderá causar graves danos (4). O Papa Leão com a devida ponderação não começa por discutir as implicações da IA na humanidade. Em vez disso, ele dedica, antes de tudo, tempo para expor os princípios fundamentais que devem ser compreendidos a fim de enfrentar as promessas e os perigos dessa nova tecnologia. 

Com esse propósito, no Capítulo Um (17–45), o papa oferece uma visão histórica e teológica da Doutrina Social Católica desde a Rerum Novarum até aos nossos dias. Ali encontram-se os fundamentos e os princípios da doutrina social da Igreja, que ele desenvolve mais profundamente no Capítulo Dois (46–89). Os fundamentos da doutrina social são: 1) a humanidade como imagem do Deus Trino; 2) Deus é Amor, que encontra a “sua expressão mais concreta na face de Jesus Cristo” (49); 3) a igual dignidade ontológica de todos os seres humanos (51–53); e 4) o valor supremo dos direitos humanos, que devem ser respeitados e protegidos (54–58). 

Os princípios do ensinamento social católico são: 1) o bem comum (59–64), 2) o destino universal dos bens (65–67), 3) a subsidiariedade (68–72), 4) a solidariedade (73–76) e 5) a justiça social (77–81). Mais adiante no  documento, o Papa Leão aplica esses princípios ao caso específico das tecnologias, especificamente da IA. Ele considera, igualmente, que o objetivo desta aplicação deve ser o desenvolvimento humano integral (82–85), o que significa “‘o desenvolvimento de cada homem e do homem num todo’” (82, citando Populorum Progressio). Por causa do possível impacto ada IA no meio ambiente, ele acrescenta, igualmente, a ecologia integral como fator a tomar em consideração. A pergunta que nos deve ser feita é: esta “As [tecnologias] realmente ajudam os indivíduos e os povos tornarem-se mais humanos e fraternos, respeitando ao mesmo tempo a nossa casa comum e as futuras gerações?” (85). 

“Capítulo Três: Tecnologia e Dominação. A Grandeza da Humanidade à Luz das Promessas da IA” pode ser considerado o núcleo da encíclica. Embora nos exorte “a não ter medo dos desafios atuais” (91), o Papa Leão XIV apresenta claramente as preocupações sobre o mau uso e os efeitos negativos da inteligência artificial.

O Papa Leão compartilha as preocupações do Papa Francisco acerca do paradigma tecnocrático, que é “a tendência de deixar que apenas a lógica da eficiência, do controle e do lucro molde as decisões pessoais, sociais e económicas (...) reduzindo a criação a um objeto de exploração e os seres humanos a meras engrenagens de um sistema voltado para uma eficiência cada vez maior” (92). Como já dizia São Paulo VI décadas antes: “‘o mais extraordinário progresso científico, os feitos técnicos mais impressionantes e o crescimento econômico mais surpreendente, se não forem acompanhados por um  autêntico progresso moral e social, acabarão por se voltar contra o homem’” (94). 

“Com a mesma fé de Maria, tornemo-nos ‘tecelões de esperança’ no nosso mundo, para que a presença de Jesus cresça entre nós e seu Reino tome forma.” 

Isso não é novidade. O que é novo, porém, é que na maioria das vezes, já não são os governos os principais detentores do controle; mas sim as empresas de tecnologia e afins (95). Essa situação exigirá grande supervisão para mitigar os perigos que esse novo tipo de poder possa vir a infligir (96). 

Essencial para lidar adequadamente com a IA é reconhecer o que ela é e o que não é. Os sistemas de IA não possuem experiências; carecem de corporalidade, embora imitem certas funções da inteligência humana — com uma velocidade incrível e e uma enorme capacidade computacional —O “tipo de “inteligência” da IA não pode ser equiparado à inteligência humana. A IA é uma forma de processamento de dados, mas carece de consciência moral e não consegue estabelecer julgamentos entre o que é o bem e o que é o mal nem compreender o que é verdadeiro e estabelecer significados. Como resultado, não pode assumir nenhum tipo de responsabilidades. Também lhe falta “a perspetiva afetiva, racional e espiritual com a qual os seres humanos crescem em maturidade (99).

Por outro lado, “a facilidade com que os resultados são obtidos, a impressão de objetividade e a simulação da comunicação humana” (100). As rapidezes na obtenção de respostas podem “encorajar a dependência excessiva  e a busca de respostas prontas”. A objetividade não é real, mas apenas aparente; contudo, o usuário pouco criterioso pode “ignorar o fato de que elas refletem os pressupostos culturais daqueles que as projetaram e treinaram, com todas as suas forças e limitações”. Como a IA imita modos humanos de comunicação, ela pode criar “a ilusão de relacionamento com um pessoal real” (100). Por outro lado, em nota separada, a quantidade de recursos naturais (água, energia etc.) necessária para operar a IA representa uma ameaça real ao meio ambiente, que precisa de ser cuidadosamente mitigada (101). 

Além disso, embora a IA pareça objetiva, ela não o é. Os sistemas de IA podem tornar-se veículos de manipulação de dados e de desinformação. Também podem ser usados de maneiras que violam a privacidade (102). Por essa e outras razões, o Papa Leão insiste que “a responsabilidade deve ser claramente definida em cada etapa: desde aqueles que projetam e desenvolvem esses sistemas até aqueles que os utilizam e neles se apoiam para tomar decisões concretas” (105). Os indivíduos e os grupos encarregados de tomar decisões devem evitar a tentação de simplesmente deixar a IA decidir. 

Na sessão 109, o Papa conecta de forma sucinta os princípios da doutrina social da Igreja apresentados anteriormente no texto com a IA. Escreve: 

“Falar do bem comum significa expor essa nova forma de assimetria epistêmica, econômica e política e nomear os novos monopólios da IA. Falar do destino universal dos bens significa encontrar formas de garantir acesso universal tanto às tecnologias quanto à educação  necessária para utilizá-las. Falar de subsidiariedade implica proteger a capacidade das comunidades de tomar decisões e corrigir o seu rumo, em vez de limitar o seu papel a uma mera supervisão após as normas terem sido pré-definidas noutro contexto. Falar de solidariedade obriga-nos a reconhecer os trabalhadores ignorados frequentemente explorados, que sustentam os sistemas algorítmicos. Falar de justiça requer questionar a distribuição global de poder que decide quem de fato pode treinar esses modelos e quem apenas está sujeito a eles. Da mesma forma, significa reconhecer que a justiça social não é apenas um objetivo a ser protegido depois que as tecnologias forem implantadas, mas uma condição que deve moldar o seu próprio “design” desde o início.”  Além disso, o Papa Leão XIV pede o “desarmamento da IA”, pelo qual entende “libertá-la da mentalidade de competição ‘armada’”, que “implica uma corrida aos algoritmos, cada vez mais poderosos e a grandes conjuntos de dados, impulsionada pelo desejo de assegurar o domínio geopolítico ou comercial. Desarmar significa não dar crédito à suposição de que o poder técnico automaticamente confere o direito de governar” (110). 

Depois de considerar alguns desses perigos potenciais, o Santo Padre destaca aspetos da humanidade que não devem ser perdidos (112–114). Os seres humanos não são produtos “a serem otimizados”; são pessoas chamadas à comunhão. E embora a inteligência seja um especto essencial da humanidade, ela não é o único; a “afeição, o compromisso e relacionamentos” também  são partes integrantes do que significa ser humano (112). Nesse ponto, o Papa Leão adverte contra o transumanismo e o pós-humanismo. Estes frequentemente envolvem “entusiasmo por novas tecnologias através de uma visão futurista de um ‘ser humano aprimorado’ ou um ‘híbrido homem-máquina’” (115). 

No Capítulo Quatro, o Santo Padre levanta outras preocupações e oferece sugestões para ajudar a proteger a humanidade nesta era digital. Ele considera os seus impactos sobre a sociedade, a educação e o trabalho. 

Quanto à sociedade em geral, a IA não deve ser permitida como veículo de desinformação. Precisa de ser contido, o perigo de as pessoas não conseguirem distinguir entre o que é um fato e a ficção, a verdade e falsidade, é real (134, com referência a Hannah Arendt). “No nível das políticas públicas, isto implica estabelecer normas para que os processos de decisão que estão por detrás da seleção e do desenvolvimento de conteúdos se tornem mais transparentes e protejam os dados pessoais” (137). Da mesma forma, há necessidade de “organizações intermediárias, jornalismo sério e fóruns de debate, nos quais a argumentação fundamentada e a verificação tenham mais peso do que a reação imediata” (137). 

No campo da educação, Leão expressa a preocupação de que os estudantes se tornem excessivamente fascinados por respostas rápidas e, assim, facilmente fiquem enfastiados com a educação autêntica, que exige pesquisa paciente, reflexão cuidadosa e discernimento (139, 146). Os estudantes precisam de ser educados tanto  sobre quando não usar IA como de que modo a utilizar (140). Por causa dos perigos existentes no mundo digital — já agravados pela IA — a supervisão de adultos é particularmente necessária. O Papa Leão alerta contra o acesso não supervisionado a dispositivos móveis pessoais em “idade muito precoce” (141), pois isso pode ter efeitos psicológicos profundamente negativos, além dos perigos morais. Para além da chamada à responsabilidade dos pais, Leão também considera que os provedores de serviços devem ser responsabilizados e obrigados a possuir “proteções específicas contra todas as formas de exploração sexual e violência online” (142).  O trabalho e sua dignidade também devem ser protegidos diante dessa nova tecnologia. A IA deve ser usada de modo a auxiliar os trabalhadores, e não o contrário (150). O potencial de desemprego é outro assunto que precisa ser enfrentado, para que grandes parcelas da população não fiquem sem trabalho sustentável e economicamente viável (151). 

No Capítulo Cinco, o Papa Leão XIV aborda a questão da guerra. A ameaça de ataques cibernéticos e propaganda é real e acelerada pela IA (183). A tecnologia tem vindo a ser cada vez mais utilizada para travar guerras e dominar outros povos. Com a perda da memória histórica (isto é, das testemunhas oculares de eventos e épocas passadas), existe o perigo de “reescrever o passado” de maneiras distorcidas que podem obscurecer os horrores da guerra (191). Atualmente, os sistemas de armas também vêm sendo aprimorados pela inteligência artificial. “Por essa razão,  o desenvolvimento e o uso da IA na guerra devem estar sujeitos às mais rigorosas restrições éticas” (197). Por exemplo, o Papa Leão insiste que “não é admissível confiar decisões letais ou irreversíveis a sistemas artificiais” (198). Devemos romper com a mentalidade que considera a guerra como uma realidade inevitável da humanidade, antes trabalhar para construir uma civilização do amor (210–211). 

Embora o papa defenda o diálogo, regulamentações governamentais e internacionais e outras formas de cooperação humana para assegurar que a dignidade humana seja protegida contra o mau uso da IA. Na sua conclusão, Leão evita qualquer pelagianismo, lembrando-nos que a Encarnação está «no centro de tudo» (231). O facto de o Verbo se ter feito carne constitui a autêntica alternativa ao transumanismo e ao pós-humanismo (232). Ele chama-nos a contemplar “o plano de Deus, vivendo a unidade eclesial mediante a participação na Eucaristia, construindo um mundo centrado no bem comum e rezando em união com a Bem-Aventurada Virgem Maria” (229). Deste modo, o Santo padre defende “uma espiritualidade eucarística, isto é, uma espiritualidade de unidade eclesial no amor” (234).  O Papa Leão chama-nos a “permanecer fiéis à verdade!” (237). Proteger a humanidade contra os ataques à sua dignidade implica fomentar o nosso próprio desenvolvimento espiritual. Diante das enfermidades sociais, podemos sempre confiar em Deus, como Maria fez nos tempos politicamente turbulentos em que viveu (243). A providência divina continua a atuar. E assim ele  nos exorta: “com a mesma fé de Maria, tornemo-nos ‘tecelões de esperança’ em nosso mundo, para que a presença de Jesus cresça entre nós e seu Reino tome forma” (245).   

Tradução livre
Maria do Rosário Homem Mckinney