O Mundo precisa de ti, Tomás de Aquino
Bispo Robert Barron
Janeiro 28, 2026

Uma semana atrás eu estava em Toulouse, em França, ocupado a filmar o meu documentário, em dez partes, sobre o catolicismo. Confesso que a minha estadia em Toulouse também tinha que ver com razões pessoais. Na igreja dominicana dos Jacobinos, num relicário dourado situado sob um altar lateral, repousam os restos mortais do meu herói, São Tomás de Aquino. Passei um bom momento em oração silenciosa diante de seu túmulo, agradecendo-lhe por ter dado direção à minha vida.

Quando eu tinha quatorze anos e frequentava o primeiro ano do ensino secundário na Fenwick High School, tive o privilégio de ouvir, da boca de um jovem sacerdote dominicano, os argumentos em favor da existência de Deus ,formulados no século XIII, por Tomás de Aquino. Não sei bem explicar porquê, mas ouvir aquelas demonstrações racionais acendeu em mim um fogo que jamais se apagou. Elas deram-me um sentido vivo da realidade de Deus e, assim, despertaram em mim o desejo de servi-Lo, de ordenar radicalmente minha vida para Ele. Sou sacerdote pela graça de Deus, mas essa graça chegou até mim por meio da
mediação de Tomás de Aquino.

Enquanto rezava diante do túmulo de Aquino, vi-me a refletir sobre a importância, para o nosso tempo, daquele a quem a Igreja chama de seu “Doutor Comum”.
O que nos pode ensinar este mestre dominicano do século XIII?

Em primeiro lugar, Tomás de Aquino percebeu com absoluta clareza que, uma vez que toda verdade procede de Deus, jamais pode haver, em última instância, qualquer conflito entre os dados das ciências e os fatos da revelação. Na sua época, havia defensores da chamada “teoria da dupla verdade”, segundo a qual as “verdades” da filosofia e da ciência pertenciam a uma categoria, e as “verdades” da fé a outra. Segundo essa interpretação, qualquer indivíduo poderia sustentar posições contraditórias entre si desde que tivesse a consciência de que tais visões opostas ocupavam compartimentos distintos da mente.

Tomás considerava isso uma absurdidade— e assim o disse. Os aparentes conflitos entre a ciência e a religião (para usar os termos atuais) nascem ou de uma
ciência deficiente ou de uma religião mal compreendida, e deveriam levar o pensador intrigado a aprofundar o tema e a pensar com mais rigor. Seguindo Agostinho, Tomás afirmava que, se uma interpretação da Bíblia entra em choque com as descobertas claramente estabelecidas pelas ciências, deveríamos recorrer a uma leitura mais mística e mais imbólica das passagens bíblicas.

Quão importante isso é hoje, quando certas formas de fundamentalismo deram origem a uma terrível reação racionalista. O literalismo bíblico — um modernismo estranho à mentalidade patrística e medieval — produziu uma variedade de concepções repugnantes à física, à biologia evolutiva, à cosmologia, entre outras disciplinas. O que levou ao isolamento de certos grupos religiosos e de certas comunidades científicas, em campos separados e mutuamente hostis. Tomás de Aquino perceberia de como é idiota e contraproducente essa dicotomia tanto para a ciência quanto para a religião. A fé, dizia ele, deve ir sempre com confiança ao encontro da cultura, e a cultura deve reconhecer na fé a realização de suas aspirações mais profundas. 

Ele compreendeu que, uma vez que Deus se fez homem em Cristo, o destino do ser humano é a divinização, a participação na vida íntima de Deus. Em segundo lugar, Tomás sabia que o Deus Criador da Bíblia é a única explicação plenamente satisfatória para a existência dos entes contingentes deste mundo. Ele impressionava -se profundamente com a existência das coisas concretas que não contêm em si mesmas a razão de seu próprio ser. Nuvens, árvores, plantas,
animais, seres humanos, edifícios, planetas e estrelas certamente existem, mas não precisam existir. Isso significa — percebeu ele — que o ser destes entes não
se explica por si mesmo, mas depende, em última instância, de alguma realidade primordial que existe pela força de sua própria essência. Esse ser “necessário” é
o que Tomás chamava “Deus”.

Ele sentia-se sensibilizado pela correspondência entre a compreensão filosófica de Deus e a autodefinição que Deus oferece de si no Êxodo 3,14: “Eu sou aquele que sou”. Quão significativo isso é no nosso tempo, quando os “novos” ateus levantam a voz para descartar a crença em Deus como o resquício de uma era pré científica. Tomás lembraria a Christopher Hitchens e Richard Dawkins, e a tantos outros, que nenhum avanço científico pode jamais, sequer em princípio, eliminar a questão propriamente metafísica para a qual Deus é a única resposta satisfatória. Deus não é uma projeção supersticiosa das necessidades humanas; ao contrário, Deus é a razão pela qual o algo existe em vez de nada.

Em terceiro lugar, Tomás de Aquino foi um profundo humanista, precisamente porque era cristão. Ele via que, uma vez que Deus se fez homem em Cristo, o destino do ser humano é a divinização, a participação na vida interior de Deus. Nenhuma outra religião, filosofia ou teoria social jamais propôs uma concepção tão elevada da dignidade e do propósito humano. É por isso — intuía Aquino — que há algo de inviolável na pessoa humana. Quanto indispensável é esse ensinamento no nosso tempo de pesquisas com células estaminais, da eutanásia, do aborto legalizado e da guerra preventiva — práticas que transformam pessoas em meios.

Os ossos de Tomás repousam naquele relicário dourado em Toulouse, mas sua mente e seu espírito, graças a Deus, ainda informam a voz contra-cultura da Igreja.

Tradução livre de Maria do Rosário H. Mc kinney


Créditos foto: bbc.com