22 de outubro de 2026

«Hoje Eu tenho de ficar em tua casa»    

Queridos amigos, 

Já demos início ao novo ano pastoral a 4 outubro e na semana seguinte peregrinámos da Ericeira até Fátima a pé, a cantar Faz-Traz-Paz. Foram dias muito cansativos e alegres, para finalmente experimentarmos a paz ao chegar ao pé de Nossa Senhora, no Santuário de Fátima. De facto, ali experimentamos a sensação tão boa de chegar a casa! 

Isto leva-me a querer abordar desta vez a crise no setor da habitação. Diariamente no FAROL das nossas paróquias lidamos com jovens e famílias que pedem ajuda, perante a dificuldade em pagar as rendas ou perante a dificuldade em encontrar uma nova casa acessível aqui nas nossas freguesias da Ericeira e da Carvoeira. O diagnóstico é bem conhecido: com a crise de 2008, muitas construtoras faliram e muitos outros construtores deixaram o país, tendo o nível de construção anual de casas caído muito. Simultaneamente, com o aumento da esperança média de vida, com a natural e desejável emancipação dos jovens e também com a chegada de muitos imigrantes ao nosso país ao longo da última década, a conjugação da pressão da procura de casa e da escassez da oferta provocou a inflação brutal do preço das casas e das rendas no mercado imobiliário, com enorme custo para as famílias. 

Diante deste flagelo social que atinge tantos e que pede respostas imediatas, vale a pena olhar para o problema também a partir do Evangelho. A nossa fé cristã é profundamente “encarnada”, isto é, Jesus veio habitar no meio de nós (Jo 1,14) e convida-nos a viver a fé na nossa história concreta com os problemas de cada tempo. Em que circunstâncias se fala da casa no Evangelho? Antes de mais, em termos bíblicos, importa esclarecer que a “casa” não se entende apenas como o edifício da habitação, mas a própria família. Nota-se o drama literal da falta de casa logo no relato do nascimento de Jesus. Em Lc 2,7, lemos como a Sagrada Família se deslocou até Belém e «teve o seu Filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria». Em Jo 1,11, essa falta de acolhimento também se entende em termos familiares: «veio para os Seus – os da Sua casa-família – e os Seus não O receberam». Após a fuga para o Egipto, depois da ameaça da terrível perseguição do rei Herodes, a família de Jesus regressou a Nazaré, onde se instalou numa humilde casa, que ainda hoje se pode visitar nas peregrinações à Terra Santa. S. José, Seu Pai adoptivo, era carpinteiro e certamente terá ajudado e ensinado Jesus no seu ofício, em muitas construções ou reparações para terras e casas vizinhas. 

A partir da vida pública de Jesus, em diversas ocasiões Ele entra em casa de amigos, tais como as casas de Cafarnaum (de Simão Pedro, em Mt 8,14) ou de Betânia (dos amigos Lázaro, Marta e Maria, em Lc 10,38). De forma surpreendente e inesperada, Jesus vai também a casa de fariseus, como Simão (Lc 7,36-50), ou a casa de pecadores públicos, como Mateus (Mt 9,10) e Zaqueu, a quem diz: «desce depressa, pois hoje Eu tenho de ficar em tua casa» (Lc 19,5). Nestes gestos de proximidade, compreendemos a missão de Jesus: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mc 2,17).  

Na pregação de Jesus, o Templo de Jerusalém é chamado justamente de «Casa de Meu Pai» (Lc 2, 49 e Jo 2,16), pela qual Ele é particularmente zeloso, pois «a minha casa será casa de oração» (Lc 19,46). Além disso, Jesus promete «na casa de Meu Pai há muitas moradas» (Jo 14,2), em alusão ao Céu e à morada eterna, pois não temos aqui morada permanente. Em seguida, o Evangelho de Mateus refere que Jesus deseja celebrar a Páscoa em casa de certa pessoa - «em tua casa farei a Páscoa com os meus discípulos» (Mt 26,18). E no dia seguinte à Última Ceia, já na hora da morte na Cruz, Jesus confia a Sua Mãe ao apóstolo João, dizendo: «Eis a Tua Mãe» e o Evangelho esclarece que o discípulo levou Maria «para sua casa» (Jo 19,27), sendo tal confirmado pela Tradição histórica que relaciona Nossa Senhora com a cidade de Éfeso, onde João viveu.  

Nestes vários excertos bíblicos, compreendemos como a casa é um lugar fundamental na vida e missão de Jesus na Terra e um lugar teológico essencial hoje para a missão da Igreja. A compreensão da casa como lugar de segurança e estabilidade da família, lugar de amor e de paz, lugar de acolhimento e de hospitalidade integral, lugar de cura e restabelecimento reflete também as próprias obras de misericórdia (Mt 25, 31-46) que Jesus nos dá como guia de vida, através das quais O reconheceremos - «quantas vezes o fizestes a um destes meus irmãos mais pequenos, a mim o fizestes». Não é acidental o nome das Misericórdias como Santa Casa nem é coincidência que se refira a cada igreja-templo como “Casa de Deus”. Como tal, diante de um problema social tão grave como este, a Igreja – isto é, todos nós individualmente e enquanto comunidade crente – tem de passar à ação. 

Consciente de que este problema tem de se resolver com políticas públicas coordenadas – construir mais prédios, reconstruir casas, desburocratizar para permitir licenciamentos mais rápidos, agilizar o mercado de arrendamento – e que a vida não pode ficar em suspenso, deixo cinco breves sugestões de resposta imediata no curto-prazo onde, como cristãos ou pessoas de boa-vontade, poderemos contribuir:  

• Ajudar a identificar espaços e casas livres – talvez nas infra-estruturas paroquiais (como o Patriarcado de Lisboa já anunciou) ou em casas de segunda habitação particular – disponíveis para ceder provisoriamente para arrendamento;
• Manter ou estabelecer novos contratos de arrendamento com um valor de renda até abaixo do nível de mercado, de modo a não pesar tanto aos inquilinos;
• Partilhar casa (os avós ou os mais velhos talvez possam partilhar casa com os netos ou com os jovens);
• Colaborar com os projectos «Just a change», em que jovens oferecem voluntariamente tempo e trabalho para reconstruir ou reparar casas devolutas;
• Servir em projetos de voluntariado como o FAROL – a ajuda de voluntários faroleiros na recolha dos alimentos nos supermercados e na preparação e na distribuição dos cabazes de apoio às famílias é fundamental;    

Ao lançarmos o novo ano pastoral 2026/27 com o lema «Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa Paz», a partir da oração de S. Francisco, compreendemos que não podemos fechar os olhos às tribulações de tantas famílias, a quem queremos acompanhar e apoiar neste tema concreto da habitação. Neste mês de outubro em que a Igreja reza pelas missões, temos aqui uma missão muito concreta onde todos poderemos ajudar. 

Além disso, é preciso continuar a incentivar os jovens ao casamento e a arriscar sair de casa dos pais, mesmo nesta circunstância de precariedade ou instabilidade. Para os jovens de cada época, sempre houve desafios e dificuldades e o testemunho dos mais velhos é inspirador para os mais novos arriscarem dar esses passos de fé, mesmo sem uma casa ainda definitiva ou “perfeita”. 

Deus vos abençoe!  
Um abraço amigo do padre Tiago