22 de setembro de 2026

Missão aMar em Porto Belo: agindo Deus, quem impedirá?   

Queridos amigos,   

Vale a pena começar por recordar a história: em 1818, o rei D. João VI, residindo com a Corte no Rio de Janeiro, no Brasil, após as invasões francesas em Portugal, deu ordem régia para que um conjunto de famílias do então Município da Ericeira, compostas de pescadores, ferreiros, artesãos, entre outros ofícios, acompanhados por um sacerdote, atravessassem o Oceano Atlântico para chegar a uma bela terra costeira, rica de peixe e ainda relativamente pouco povoada. Assim, incumbidos dessa missão, cerca de 100 «jagozes» ou «ericeiros» vieram corajosamente para a Enseada das Garoupas, numa longa viagem de barco enfrentando perigos vários. Nessa travessia atlântica, de cerca de 3 meses, acumulavam sonhos. Vinham movidos pela vontade de pescar e ensinar a pescar, de povoar aquela bela terra, de servir e amar. Ao chegarem, sem esquecerem as suas raízes, a localidade ganhou o nome de “Nova Ericeira”. As famílias trouxeram da Ericeira as suas tradições culturais, gastronómicas e religiosas, bem como a experiência na pesca. Entretanto, com a independência do Brasil em 1822 e com o incumprimento das promessas de apoio à pesca, alguns dos migrantes jagozes regressaram ou deslocaram-se para outras regiões e a colónia ganhou o novo nome pelo qual é conhecida hoje: Porto Belo.   

Quando li a obra “A Ericeira Brasileira”, da autoria da professora e historiadora Arlete Assumpção Monteiro, descobri a profunda ligação entre as duas terras. Afinal, somos irmãos e partilhamos as mesmas raízes! Fernando Pessoa escreveu «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce». Movidos pela vontade de Deus e pelo sonho, a missão foi ganhando forma graças ao entusiasmo e empenho do casal Elsa e Artur e dos 15 jovens missionários e graças ao apoio extraordinário da Paróquia do Bom Jesus dos Aflitos de Porto Belo e da Câmara Municipal de Porto Belo e de tantos benfeitores. Ultrapassando os receios e as dificuldades logísticas e financeiras, fomos preparando a missão e finalmente pudemos partir para o Brasil no dia 24 agosto, para continuar a servir e a pescar. Sim, em certo sentido, também somos «pescadores de homens» como o nosso patrono S. Pedro, e fomos impelidos pela urgência do apelo de Jesus «vai e reconstrói a Minha Igreja», dirigido a S. Francisco de Assis e a todos nós, que somos a Igreja.  

À chegada, já de noite, fomos muito bem recebidos pelo padre Dyego, novo pároco, pelo casal coordenador Rodrigo e Juliana e por outros membros da comunidade paroquial e ficámos alojados no salão paroquial, junto à igreja matriz. No dia 25, depois da habitual oração matinal de S. Francisco, começámos então uma visita de reconhecimento a pé até ao centro de Porto Belo e na parte da tarde assistimos a um concerto da Banda Filarmónica do Rio de Janeiro e logo começámos a preparar e ensaiar uma peça de teatro com as crianças e adolescentes da catequese da paróquia. A peça contava a viagem de uma família da Ericeira até Porto Belo, intercalando com os sonhos de uma criança, onde se representavam cenas da vida de S. Francisco de Assis. Com essas crianças e adolescentes, durante os dias seguintes pudemos ensaiar o teatro, as músicas e danças e pintar os cenários para a peça. Passados poucos dias de treinos, foi muito emocionante juntar todas as partes e ver o entusiasmo e o orgulho dos nossos jovens protagonistas e a maneira como o Davi, representando S. Francisco de Assis de modo improvisado, dava algum encargo prático a cada personagem que dele se aproximava com vontade de ajudar no restauro da igreja de Assis, dizendo: «você, pegue na areia, e você, pegue no pincel, e você, pegue na tinta». Nesse momento, todos os que participavam ou assistiam à peça compreenderam que o restauro da Igreja depende de todos nós, é tarefa de todos nós, a quem Deus chama para servir.  

Também durante esses dias, entre muita chuva e sol, fizemos missão porta-a-porta, visitámos doentes com os ministros da Comunhão, entrámos nas escolas, jogámos futebol de praia com jovens e rezámos e celebrámos Missa nos diversos lugares de Porto Belo. Com a vaga de construção de prédios, através de permutas de terrenos, a cidade tem crescido muito nos últimos anos, com mais de 30.000 habitantes no inverno e quase 300.000 no verão. Por isso, a paróquia enfrenta muitos desafios e há várias comunidades muito diferentes e novas igrejas em formação: além da igreja matriz, estivemos em Nossa Senhora de Lourdes (Perequê), Senhor dos Passos (centro), Divino Espírito Santo (Vila Nova), Sagrada Família (Jardim Dourado), Santa Teresinha (Araçá), Nossa Senhora Aparecida (Sertão), Santa Catarina (Alto Perequê) e no lar em Tijucas. Em cada comunidade tivemos alguma refeição deliciosa – pastéis, feijoada, peixe ou carne para churrasco ou fogo de chão, acompanhado de milho ou pirão, com sobremesas com doce de leite, etc – e fizemos missão à mesa, partilhando e ouvindo extraordinárias histórias de fé. Foi igualmente emocionante visitar a favela e conhecer a realidade da pobreza e da simplicidade de tantas famílias. Por isso propusemos ainda uma recolha de alimentos e depois entregámos esses cabazes a algumas das famílias visitadas. Por fim, organizámos o tradicional Terço vivo, na praia, mesmo junto ao mar, ao cair da noite. Ali a Providência de Deus arranjou tudo o que precisávamos: garrafões suficientes, velas, um barco de base para a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, esferovite para escrevermos o lema da Missão e muita gente para rezar. Ao terminar o Terço vivo, seguimos numa linda procissão em honra de Nossa Senhora até à igreja do centro, para a Missa de envio, juntando todas as comunidades visitadas. Nessa celebração, tivemos a alegria de oferecer a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem à Paróquia de Porto Belo e pudemos baptizar a menina Ayla, de poucos meses, rodeada pelos missionários junto à pia baptismal. Essa menina é um sinal de esperança da desejada renovação missionária da Igreja! Com todos a cantar a música «Quem impedirá? Quem impedirá? Agindo Deus, quem impedirá?», despedimo-nos da comunidade cheios de gratidão e com esperança de em breve podermos receber os nossos amigos na Ericeira.   

Cansados, mas com tantas graças recebidas e histórias para contar, regressámos a Portugal no dia 5 setembro. Nestas semanas, estamos a preparar o novo ano pastoral 2026/27. Aproveito a convidar todos para a abertura do ano no dia 4 outubro, com Missa campal às 12h no Parque de Santa Marta. Contamos convosco?   

Deus vos abençoe!    
Um abraço amigo do padre Tiago