Magnifica Humanidade
Queridos Amigos,
Ao sentar-me agora para escrever, suspiro de cansaço e de espanto por tanta coisa boa a acontecer nas nossas paróquias, cheias de vida! Com o Padre Jacinto fora em visita a Angola, tivemos quatro semanas muito intensas e sobrecarregadas e dei por mim muitas vezes a contar os dias para o seu regresso… Tivemos a Primeira Confissão das crianças e a festa da Consagração a Nossa Senhora no dia 31 maio, seguida da Festa da Primeira Comunhão no feriado de Corpo de Deus a 4 de junho, celebrado com a II Jornada Eucarística – com presença e testemunho tão tocante do humorista Vasco Pereira Coutinho, que nos recordou que Jesus e a Igreja Católica, como Cabeça e Corpo, são inseparáveis. A 5 e 6 junho participámos no Acampamento com Promessas nos 10 anos do nosso Agrupamento de Escuteiros 679 Ericeira. Realizámos um passeio das famílias da Catequese e depois um passeio das crianças da Escola da Ericeira (EB1) até ao convento de Varatojo. Celebrámos a Missa e Procissão solene do Sagrado Coração de Jesus (12 junho, em Fonte Boa dos Nabos) e de Santo António (13 junho, na Carvoeira). Além disto, ao longo deste mês de junho, temos tido as festas de Santos Populares aqui no largo da igreja de S. Pedro, com organização da Comissão de Festas, Equipas de Jovens de Nossa Senhora e Imigrantes de Fé (Festa Junina), Escuteiros e de muitos voluntários da paróquia. A nível eclesial, o Papa Leão ofereceu uma nova encíclica «Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial» e fez uma visita apostólica a Espanha, entre 6 e 12 junho, com vários momentos emocionantes. A nível internacional, teve início o Mundial de Futebol – será desta vez, Portugal? – e foi anunciado um novo acordo de paz entre Estados Unidos e Irão, que nos enche de esperança.
Gostava de me debruçar sobre esta nova encíclica do Papa Leão sobre a Magnífica Humanidade, a partir de uma citação: «Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir no seu esplendor. O verdadeiro progresso nasce sempre de um coração aberto ao outro, de uma inteligência disponível para ouvir, de uma vontade que procura mais o que une do que o que separa» (Magnifica Humanitas, 15).
A Igreja não é contra a evolução e o progresso, embora esse mito se difunda entre alguns meios académicos e populares, acusando a Fé cristã ou a Inquisição da Igreja Católica de serem obstáculos ao desenvolvimento científico e à prosperidade. Aliás, ao longo da história, tantas vezes foi precisamente o olhar cristão crente sobre a realidade que libertou a humanidade de uma concepção meramente mágica e supersticiosa do mundo, para passar a buscar uma lógica racional nos acontecimentos, nas pessoas e nas coisas. De facto, na base do estudo e do método científico está essa crença cristã de que o mundo tem uma beleza – que admiramos com espanto e pela qual damos graças a Deus de todo o coração – e uma ordem e lógica racional – que buscamos descobrir para compreender o «como» das coisas. A atestar o que afirmo, vale a pena recordar que a Igreja Católica tem dado tantos extraordinários cientistas padres, religiosos e leigos ao longo destes dois mil anos: Copérnico (autor da tese heliocêntrica, pela qual a Terra gira em torno do Sol), Nicolau Steno (inclusivamente foi beatificado pelo Papa S. João Paulo II), Pascal (matemático e autor da famosa “aposta”), Galileu (mesmo com a intervenção da Inquisição, manteve-se cristão até ao fim), Mendel (aclamado como o “pai da genética”), Louis Pasteur (famoso autor da vacina contra a raiva), George Lemaître (autor da teoria do Big Bang há 100 anos), entre muitos.
Por outro lado, se incentiva o estudo científico e a conciliação entre fé-ciência-razão, a Igreja assume também esse grave dever de alertar para os limites e os perigos do caminho que se trilha. Através da reflexão teológica na área da Teologia Moral Pessoal e Social, compendiada no conjunto da Doutrina Social da Igreja, o Papa Leão, na senda dos Papas anteriores, recorda-nos que cada período da história tem os seus avanços e os seus limites. Na verdade, vivendo nós um extraordinário e rapidíssimo avanço tecnológico, fruto do génio humano, é preciso reconhecer que se esconde um real perigo de desumanização, na medida em que muitos homens desconhecem a Cristo e cada vez mais nos tornámos dependentes das máquinas, quase “endeusadas” ou transformadas em armas mortais, até auxiliando ou mesmo substituindo faculdades humanas para tantas pequenas ou grandes tarefas quotidianas a nível profissional ou pessoal. Sem cair em alarmismos, o Papa destaca que é preciso prudência no uso e desenvolvimento destes meios de inteligência artificial, sendo corroborado por importantes engenheiros informáticos, como Christopher Olah, um dos fundadores da Anthropic.
Nesta nova Encíclica, o Papa Leão não trata apenas de aspectos técnicos, mas vem então exortar-nos a permanecer profundamente humanos. Como se fará isso? Precisamos de voltar a contemplar a verdadeira humanidade de Jesus e a magnífica humanidade dos santos (populares ou não tanto). Como ensina a Constituição Pastoral Gaudium et Spes (um dos principais documentos do Concílio Vaticano II) «o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente» (GS 22), pelo que é preciso voltar a contemplar Jesus e descobrir no Seu Sagrado Coração cheio de amor a chave da Sua relação filial com Deus Pai e da Sua relação fraternal com todos (família, apóstolos, discípulos, amigos, ou estrangeiros, doentes ou sãos, crianças, pecadores, etc). Também na vida dos Santos Populares, que agora celebramos, compreendemos aquilo que os revela como homens simultaneamente extraordinários mas limitados e imperfeitos como nós: seres de relação, dotados de corpo e alma, com liberdade, inteligência, vontade e, desse modo, magnífica capacidade de amar e de ser amados, movidos por um desejo de vida eterna. E aí, no campo da liberdade e do amor, a inteligência artificial nunca poderá alcançar-nos ou substituir-nos.
Ao longo dos próximos meses, aproveitemos a ler e a refletir sobre esta Encíclica e gozemos este dom de sermos filhos muito amados por Deus e irmãos uns dos outros e de todos!
Deus vos abençoe.
Um abraço amigo do padre Tiago