«O que é a conversão?»

Queridos amigos, 

Há duas semanas, numa Missa com as crianças da catequese, comecei a homilia dizendo que a Quaresma é o caminho de preparação para a Páscoa e o tempo para a nossa conversão. É uma frase habitual, que digo quase sem pensar. Porém, o significado das palavras pode não ser assim tão evidente. Vendo ali tantas crianças, perguntei então aos pequeninos: «o que é a conversão?». Depois de um breve silêncio, com as crianças de olhar interrogativo e espantado, uma delas levantou o braço e respondeu: «a conversão é uma conversa muito graaaaaaaande»! Todos se riram com aquela resposta espontânea!

Fiquei a pensar naquela resposta inesperada durante os dias seguintes. Realmente, a conversão é uma grande conversa com Deus, uma experiência de oração que muda a nossa vida e é capaz de transformar o nosso coração com o Seu amor. Esta grande conversa não leva apenas a uma mudança de comportamentos, mas à descoberta na oração de quem Deus é – Pai, Filho e Espírito Santo – e de quem todos nós somos, diante dEle: Filhos amados, Irmãos com o Filho, já não servos mas Amigos, habitados pelo Espírito. Esta surpresa traz um novo sentido e uma nova responsabilidade para a nossa vida. «Quem reza nunca está só», dizia o Papa Bento XVI. A nossa fé cristã não é apenas uma moral, um conjunto de valores, mas um encontro com Deus, que nos fala ao coração e que pede a nossa resposta generosa, para que deixemos Cristo viver em nós, de tal modo que quem nos veja, O reconheça… e essa conversa dura para a vida inteira! 

Nessa grande conversa, pela Palavra de Deus, tomamos muitas vezes consciência da injustiça da nossa falta de acolhimento e falta de correspondência ao Seu Amor. Usando estes termos da justiça, podemos dizer que Deus merece o esforço da nossa mudança, da nossa conversão. Os nossos pecados – as faltas de amor para com Deus, para com os outros e para connosco – são essa desordem no nosso coração e nos nossos comportamentos e “desfiguram-nos”. Para isso, o próprio Deus enviará tantos Profetas (ao longo do Antigo Testamento) e depois o Seu Filho Jesus, que dirá: «arrependei-vos e acreditai no Evangelho (Marcos 1) e exortará «vai e não tornes a pecar» (João, 8) e contará a Parábola do Filho Pródigo, que volta a casa num farrapo para ser novamente vestido com o traje próprio de filho (Lucas, 15). Se a justiça é “dar a cada um o que lhe é devido”, a conversão é essa iniciativa do próprio Deus, que ao longo da história da Salvação vem justificar-nos, ou seja, tornar-nos justos e santos, repondo a imagem e semelhança com Ele, reordenando a nossa vida. Isso acontece especialmente quando Jesus vem à Terra para nos reconciliar com Deus Pai. Desse modo, dá-nos o Seu perdão – agora no sacramento da Confissão, na Igreja – e oferece-nos a Sua ajuda, para aprendermos a viver com Ele e como Ele, a dar-Lhe o primeiro lugar e tudo o que Lhe pertence, nos pensamentos, nas palavras e nas ações na nossa vida. 

A medida da conversão é Cristo. O motor da conversão é Cristo. A meta da conversão é Cristo. Se a conversão conta com o nosso empenho, não depende tanto de um esforço nosso de auto-aperfeiçoamento, mas mais de um acolhimento da graça de Deus, que nos é dada sempre. Se há momentos fortes e especialmente consoladores, se há experiências da graça da Misericórdia de Deus, pode haver também momentos dolorosos, incómodos e exigentes, pela tomada de consciência dos erros cometidos, da dor provocada a Deus e aos outros e daquilo que precisa de mudança na nossa vida, a nível pessoal e a nível comunitário. Por vezes, pode ser tentador fechar os olhos e manter-se na ignorância para não ter de reconhecer que é preciso mudar alguns padrões de comportamento...  

A história bíblica está cheia de relatos desses momentos de conversão e vocação, de encontros de personagens reais, históricas, com o Pai ou com Jesus. As suas vidas transformaram-se a partir daquela ocasião. Lembro a conversão ou vocação de Abraão (Génesis, 12), de Moisés (Êxodo, 3), de David (1º Livro de Samuel, 16), de Simão Pedro (Lucas, 5), de Nicodemos (João, 3), da mulher samaritana (João, 4), do cego de nascença (João, 9), de Simão de Cirene (Marcos, 15), do Bom Ladrão (Lucas, 23), de Paulo (Actos dos Apóstolos, 9), entre tantos. A história dos santos, mais antigos ou mais contemporâneos, também está repleta de episódios extraordinários de mudanças de vida, a partir de um encontro, de um toque da graça de Deus. Porém, o que mais nos impressiona na vida dos Santos talvez seja depois a consistência da sua fidelidade amorosa nas coisas normais, muito humanas, para a vida toda. E se os Santos não são perfeitos – ninguém o é e S. Paulo até reconhecerá «tantas vezes não faço o bem que quero e faço o mal que não quero» (cf. Romanos 7, 15-18) – ainda assim não desistem de tentar ser melhores a cada dia: «um Santo é um pecador que não desiste»! 

É importante sublinhar esta ideia: a grande conversa, a conversão, não é coisa de um instante apenas, mas para sempre. A oração diária traduz-se na vida prática, é uma “boa luta com Deus” de cada momento e para as pequenas coisas da vida toda. Por vezes, esta grande conversa não é fácil nem consoladora, sendo composta de tentações, de cansaços, de adiamentos, de infidelidades e pequenas ou grandes quedas da nossa parte, de secura espiritual, de deserto. Deus, porém, permanece fiel sempre e, mesmo quando não O sentimos tanto, Ele está connosco e ajuda-nos! Se Deus permite certos momentos de secura espiritual na nossa vida interior, também isso servirá para a nossa conversão, para nos aproximarmos ainda mais dEle e para aprendermos a buscar Deus mais desinteressadamente, por Quem Ele é e não apenas pelo consolo que Ele nos dá. 

Estamos quase a chegar à Semana Maior, a Semana Santa. Convido-vos a acolher a alegria do sacramento da Confissão (pelo menos uma vez ao ano, por altura da Páscoa, ensina a Igreja) e a acompanhar de perto a Procissão do Senhor dos Passos no Domingo de Ramos (29 março, 16h) e a participar nas celebrações do Tríduo Pascal, incluindo o grande Banquete em comunidade no Salão Paroquial, após a Vigília Pascal. Deixemo-nos comover e converter pelo que celebramos: na morte de Jesus na Cruz e na Sua Ressurreição vemos o Amor de Deus que é digno de fé. É esse Amor que o nosso coração pede. Deus dá-nos o melhor de Si. Deus merece o melhor de nós. 

Santa Páscoa!
Um abraço amigo do padre Tiago