Queridos amigos,
No final de janeiro, tivemos a terceira e última edição da Missão País na Carvoeira, com mais de 50 jovens universitários a servir, a evangelizar e a trazer tanta alegria à nossa comunidade, batendo a cada porta para dizer «a paz seja convosco». Num dos primeiros dias da Missão, alguns missionários visitaram a casa da Dulce e do Vítor e conheceram a história da Cátia, uma rapariga muito especial, com 40 anos, que requer cuidados permanentes pela sua deficiência profunda. Por coincidência, no dia seguinte voltámos a casa da Cátia e dessa vez eu acompanhei os jovens e puxámos o assunto do seu baptismo… Logo a Mãe Dulce se decidiu a não adiar mais e marcámos a data! Assim, a meio da semana, num dia aparentemente normal, celebrámos o baptismo da Cátia, durante a Missa, com uma multidão de gente, entre missionários, familiares e amigos. Foi tão comovente ver como também a Cátia é filha amada de Deus e membro da nossa família na Igreja. Também ela é uma missionária, enviada por Deus com a missão de nos despertar a todos para amar com mais generosidade. Durante a celebração, no gesto da paz de Cristo, todos os jovens missionários quiseram saudá-la e foi arrepiante ver, um a um, a dar-lhe um beijinho ou uma festa carinhosa. Foi um verdadeiro milagre que deu tanto sentido à missão! E nessa noite tivemos outro “milagre”, com o golo tão festejado do guarda-redes Trubin, que deu a vitória ao Benfica frente ao Real Madrid por 4-2 no último instante e a qualificação para a fase seguinte da Champions League. Na Missa da despedida, entre muitas partilhas emocionantes, reconhecemos a urgência de continuarmos a missão porta-a-porta aqui na Carvoeira e na Ericeira. Usando a analogia do futebol, precisamos de imitar o Trubin e arriscar avançar e bater à porta dos vizinhos para os convidar… e quem sabe se a porta do seu coração se abre para Cristo!
Precisamente naqueles últimos dias de janeiro deram-se as terríveis tempestades que atingiram a zona centro do nosso país, com efeitos devastadores em famílias, casas, fábricas, florestas, rios e barragens. Rapidamente a nossa comunidade quis ajudar, angariando bens alimentares, lonas e roupas através do FAROL. Com a participação de tanta gente, enchemos duas carrinhas para seguir até Figueiró dos Vinhos e até uma das localidades de Leiria, Monte Real, onde se encontra um convento de irmãs Clarissas, com 37 religiosas. Nas semanas seguintes, continuámos a angariar bens e regressámos a Monte Real no dia 21 fevereiro. Nesta ocasião, pude acompanhar um grupo de 55 jovens do nosso concelho de Mafra, provenientes de várias paróquias. Com a carrinha do Hugo cheia de bens para descarregar, com um autocarro cheio de jovens com vontade de servir, chegámos a Monte Real de manhã, pelas 11h, mas começámos por ter um encontro com as Irmãs Clarissas sobre o tema da vocação religiosa e sobre a aparente «inutilidade» de uma vida dedicada à oração pelos outros. Na felicidade das irmãs, reconhecemos que quem a Deus tem, nada lhe falta, nem mesmo a água ou a eletricidade no meio da tempestade… depois da conversa, das músicas e da oração, fizemos um “comboio de jovens” para descarregar tudo o que vinha na carrinha e foi muito entusiasmante ver como todos puderam ajudar. Depois do almoço na sala do convento, seguimos em pequenos grupos para a missão porta-a-porta. Acompanhei alguns jovens da Ericeira e conhecemos muitas pessoas, entre as quais a D. Laura, uma senhora de 80 anos muito bem-disposta, que nos contou o medo da noite da tempestade e como se refugiou na oração. A sua casa foi muito atingida e estava ainda com visíveis marcas. Tentámos ajudar e arrumar a casa, lavando e tirando o que já não tinha arranjo. No final, rezámos juntos e quando nos despedimos, perguntei se a D. Laura se quereria confessar. Lá se confessou e a missão ficou mais cumprida!
Regressámos ao convento para a Missa final de despedida às 18h. Comecei a homilia contando a história da vocação de S. Francisco de Assis, neste ano jubilar franciscano, pelos 800 anos da sua morte. Um dia, enquanto rezava na igreja de S. Damião, o jovem Francisco ouviu a voz de Jesus, a partir do Crucifixo, interpelando-o: «vai, Francisco, e reconstrói a Minha igreja, que, como vês, está em ruínas». Francisco começou a obra de restauro daquela pequena igreja e ao fim de algumas semanas, julgando já ter terminado a obra, compreendeu melhor a sua missão: «Francisco, não era apenas essa igreja… era toda a Igreja». Francisco recebera de Jesus o carisma da pobreza e da fraternidade e fundou a Ordem dos Frades Menores, com autorização e reconhecimento papal. Naquela missão de S. Francisco reconhecemos o que somos chamados a fazer agora nesta Quaresma: abraçar o despojamento forçado pela tempestade e reconstruir a Igreja, não apenas cada edifício, mas cada pessoa e cada família – Igreja doméstica – seja lá em Leiria, seja aqui na Ericeira ou na Carvoeira. Acompanhando os 40 dias de Jesus no deserto, a Quaresma é um tempo favorável para a conversão, o restauro ou reconstrução exterior e interior da Igreja, que somos todos nós. Nessa reconstrução, é essencial reconhecer os danos provocados – sobretudo os danos dos nossos pecados: comodismo e busca dos prazeres, vaidade e ânsia de protagonismo, poder e pretensão das riquezas – e os meios para vencer e corrigir esses danos pessoais e comunitários: o jejum, a oração e a esmola. Deste modo, é muito importante fazer propósitos concretos, pequenos, práticos e possíveis de jejum, oração e esmola, vivendo a Quaresma já à luz da Páscoa da ressurreição de Jesus!
Um abraço amigo do padre Tiago
ps 1 - Quem diria há uns anos que chegaríamos ao artigo 50 aqui no nosso jornal «O Ericeira»? É motivo para festejar e para agradecer a vossa paciência comigo e a oportunidade que me dão de escrever todos os meses!
ps 2 – Já cheguei aos 40 anos! Tivemos Missa e a seguir uma grande festa de Carnaval no salão paroquial, com tão boa organização de muitos paroquianos e amigos. Graças a Deus!