O SENHOR PADRE ARMINDO!!!
Acedendo a um pedido do Padre Tiago, aqui estou a tentar escrever algo sobre o nosso saudoso Padre Armindo.
É verdade, que à porta de se realizar um ano da sua morte, a sua memória, entre muitos de nós, continue tão presente.
É muito difícil escrever uma página sobre ele, uma vez que tive o privilégio de o conhecer quando chegou à Ericeira, e o fui acompanhando mais ou menos de perto até ao final, muito abrupto, dos seus dias, o que totaliza quase 15 anos.
Poderia dizer que, a seguir à minha avó, talvez tenha sido, aqui na Ericeira a pessoa que mais me marcou. Pela sua personalidade, bondade, sabedoria, espiritualidade, delicadeza e um bom Amigo. Durante todo este tempo, ele foi nosso Professor, nos Estudos Gerais da Ericeira, responsável e companheiro de algumas Visitas de Estudo que fomos realizando ao longo dos anos e muito especialmente Amigo de todos.
Paralelamente, e como ele muito bem dizia, os Estudos Gerais organizam Visitas de Estudo, a Paróquia organiza Peregrinações.
Juntos, tivemos a alegria de organizar cerca de 12 Peregrinações. Algumas a Fátima, Vila Viçosa, mas a maioria em Espanha, onde tivemos a oportunidade de percorrer quase todo o país. Poucas Catedrais de Espanha, Mosteiros, Igrejas, bons Hotéis, Paradouros e Restaurantes nos escaparam.
O Padre Armindo adorava pensar onde havíamos de viajar no ano seguinte.
Sentados no banco de pedra, à porta da sacristia, e à mesa do restaurante do Sr. Luís (Farol), muitos planos fizemos, muitos circuitos delineámos e muitos sonhos fomos vivendo e levando a cabo. Ele auscultava muito o seu amigo “Cura”, o Padre Espanhol, natural de Ourense e muito conhecedor de grande parte das regiões de Espanha, mas nomeadamente da Galiza.
Foi a conselho dele que fizemos todo o percurso da Ribeira Sacra e a Visita aos Mosteiros Cistercienses. Uma zona soberba em termos paisagísticos e riquíssima em termos culturais. Muito importante era também para nós a preciosa ajuda do Prof. João Gil, tão conhecedor da arquitetura sacra.
O Padre Armindo foi talvez a única pessoa na Ericeira, pelo menos do meu conhecimento, que se preocupou em criar “COMUNIDADE”, nesta vila. Para ele era muito importante que todos integrassem a peregrinação, independentemente do extrato social, desde que “se portassem bem”!
Tinha muito pouca tolerância com pessoas soberbas ou incorretas. Mais facilmente admitia uma linguagem brejeira do que más criações.
Nunca o ouvi dizer mal de ninguém nem fazer críticas.
Ria-se perdidamente com a Fernanda Abrantes, a Nanda, como lhe chamava, pelo facto de ser tão castiça. E ela adorava também o Padre Armindo e tinha-lhe um respeito enorme.
Ele falava com uma ternura tremenda dos “seus meninos”! Aqueles que foram seus alunos e eram homens notáveis políticos (Dr. Santana Lopes, Dr. Francisco Louçã, e Dr. Elísio Somevielle). Contava as histórias deles, quando eram seus alunos, ainda bem meninos, as coisas que faziam e diziam. Tal pai a contar as proezas dos filhos tão amados.
Foram peregrinações fantásticas. Iniciámos em Santiago de Compostela, onde fomos mais do que uma vez, mas a primeira foi memorável.
A sua alegria era tremenda quando saímos em viagem. Adorava Espanha. Adorava os bons petiscos e gostava de comer e beber. Apreciava os bons vinhos.
Em Espanha, os seus favoritos eram os “Revueltos”, espargos verdes com ovos mexidos. E os bons queijos, especialmente o Mancheco.
Uma das cenas que todos recordamos com alegria e divertidos, foi a de uma das viagens que fizemos a Granada.
À noite, um homem no hotel onde estávamos alojados, vendia bilhetes para assistir ao espetáculo de Flamengo, nas “Cuevas”, em Granada (o Bairro Alto lá da zona). O mais castiço de toda a Espanha.
Decidimos que íamos assistir ao espetáculo, mas que levaríamos o Padre Armindo connosco. Aquilo, obviamente, era extra programa, não fazia propriamente parte da peregrinação.
Ele acedeu, e ainda perguntou? Mas acham que eu devo ir? E lá veio connosco.
As famosas “Cuevas” são grutas, cavadas nas montanhas que cercam Granada. Pequenas e muito baixas. As salas são pequeníssimas e as cadeiras onde estávamos sentados, faziam-nos lembrar as cadeirinhas alentejanas de palha, para a costura. A cada um de nós ofereceram um copo com uma bebida. E ali estávamos nós, cerca de 50, numa salinha só para nós, arrumadinhos, lado a lado. Nisto começa o espetáculo de Flamengo.
A menina que dançava o Flamengo, com o seu vestido cheio de folhos, quase que ficava ao nosso colo. De repente, e no meio da dança, o vestido da menina, rebenta e ela fica com as costas à mostra. E eu pensei: "Ai valha-me Deus!!!!"
Veio de imediato um parceiro, que lhe colocou um xaile pelas costas, que a tapou de imediato. Foi uma risota geral. Uma autêntica aventura levar o Sr. Padre Armindo para o Flamengo!
Aquela cena que na altura considerámos arrojada, é hoje vulgar em qualquer casamento ou batizado, dentro da própria Igreja.
Nunca o ouvi reclamar de nada! Tudo lhe agradava e tudo o satisfazia. Um autêntico Homem de Deus. A grande prova do que escrevo, podemos todos confirmar, pelos dias, semanas e meses infinitos que passou enclausurado, por causa da pandemia, sempre com uma resignação de santo. Triste pelo facto de não poder sair, vir à rua, ler os jornais, ir às Ribas e conversar com as pessoas, mas não revoltado ou amargo.
Ele deixou a esta comunidade, uma pegada enorme, tipo dinossauro. E uma tremenda saudade, quer pela pessoa que foi, quer pelos legados das frases que repetia! “Devemos sempre deixar este mundo melhor do que o encontrámos”; “Regra dos três p’s: pouco, pequeno e possível”; “A Ericeira leva três dias a atravessar”; “Bendita seja a luz do dia, bendito seja quem a cria, bendito seja Jesus, filho da Virgem Maria”; “Deus amou tanto a Ericeira, que lhe deixou o seu filho bem amado.”
E não é que deixou mesmo?
Noémia Barros