Aqui estou eu a partilhar convosco as minhas alegrias, tristezas, sonhos, desejos... Enfim, tento testemunhar o amor de Deus por mim neste jovem país que é o Sudão do Sul. Sinto-vos muito perto com todo o vosso cuidado e interesse em colaborar comigo nesta missão de Fraternidade.
Assim nos fala o Papa Francisco, em Fratelli Tutti n’ 95: “Enfim, o amor coloca-nos em tensão para a comunhão universal. Ninguém amadurece nem alcança a sua plenitude, isolando-se. Pela sua própria dinâmica, o amor exige uma progressiva abertura, maior capacidade de acolher os outros, numa aventura sem fim, que faz convergir todas as periferias rumo a um sentido pleno de mútua pertença. Disse-nos Jesus: «Vós sois todos irmãos» (Mt 23, 8).”
Na semana passada estive a fazer o meu retiro anual e não precisei de Internet para comunicar convosco e vocês comigo. E especialmente com Deus. Foi mesmo bom. Experimento uma ternura enorme, uma gentileza, uma suavidade extraordinária. “Seduziste-me, Senhor, e eu deixei-me seduzir!” Jer 20,7a
Neste retiro pude sentir saudades (a mãe fez um ano que partiu para a eternidade). Chorei e agradeci por tanto amor recebido. Tive tempo para sentir saudades e pôr tudo nas mãos de Deus. Ele acalma as tempestades. “Ele despertando, falou imperiosamente ao vento e disse ao mar: "Cala-te, acalma-te!" O vento serenou e fez-se grande calma”. (Mc4, 35-41) Que suavidade é a ternura de Deus. Só tenho de confiar.
Depois de estar 7 dias numa extraordinária caminhada espiritual e num sítio em comunhão com a Casa Comum, volto a Juba, capital do Sudão do Sul, terrível, barulhenta, cheia de gente a caminhar aos “encontrões”, lixo e onde vou dormir? No jardim, numa tenda, pois a nossa casa foi para obras. [risos]
Seguro ou não seguro é o que se pode arranjar. Por falar em segurança, noutro dia acordei, em Wau, ao som de dois tiros. Portanto, segurança total só na Eternidade.
Como escreveu São Daniel Comboni: “O missionário, a missionária deve estar dispostos a tudo: à alegria e à tristeza, à vida e à morte, ao abraço e à despedida. E a tudo isso estou disposto também eu.”
E agora partilho convosco a minha grande alegria de poder estar na Escola Secundária e de partilhar saberes.
O gosto pela escola ficou muito marcado em mim nos últimos 3 anos em Portugal quando comecei a aventura de lecionar EMRC nas escolas da Ericeira - obrigada, Pe. Tiago e Ir. Sandra pelo desafio. Havia necessidade e colaborei ao ponto de ir fazer o mestrado em Ciências Religiosas para poder ser profissional. O desafio foi enorme e muito bom. Tão bom que o continuo a viver. Assim, apresentei-me na Escola Secundária dos Jesuítas aqui em Wau e logo fui convidada para partilhar saberes. Os meus 40 minutos semanais são sobre os Valores Educativos. É um tomar consciência de quem sou eu, do que sou capaz e do que posso ser. E nesta partilha de saberes partilho o saber da Encíclica do Papa Francisco Fratelli Tutti. Porque não somos irmãos e o que podemos melhorar. Está a ser muito interessante. Estou a gostar imenso. Tenho o sonho de entrar noutras Escolas Secundárias e caminhar com esta juventude linda. Isto tudo é em inglês. E tem que ser com os mais crescidos, pois nas Escolas Primárias todos falam em árabe e eu só ainda balbucio algumas palavras.
Mas, de facto, também vou às Escolas Primárias: primeiro, ter as minhas lições de árabe; e segundo, praticar o meu árabe com as crianças no intervalo das aulas que é de 30 minutos. É muito bom ter um professor que me ensina árabe e ter crianças com quem possa praticar o árabe. É muito bom ter as crianças na escola.
De facto, quando as escolas abriram a vida aqui em Wau, imagino noutros sítios também, tornou-se mais alegre, mais exigente. Os professores e outros funcionários têm emprego, as crianças estão a ser educadas, o mundo fica de outra cor.
Tentei saber como os professores vivem e ensinam. Com muita pena minha, os professores no ensino público não ensinam. Porquê? Porque não são pagos. E quando recebem alguma coisa é mesmo insignificante e com muito atraso. Claro que num sistema assim é muito difícil de ter sucesso. Mas, como sempre, a Igreja é um pilar na sociedade e assim existem algumas escolas privadas católicas e outras mesmo privadas. Nestas escolas há que pagar propinas. Mesmo que seja 20 euros por ano, o que é muito para a maioria.
As escolas estão superlotadas, pois crianças por estas bandas não faltam, graças a Deus. E graças a Deus e a muitos amigos neste início de ano conseguimos, como Irmãs Missionárias Combonianas, ajudar 150 crianças e adolescentes a frequentarem a escola. Foi um projeto de 5 000 euros.
Fico triste quando vou para a escola, na minha bicicleta, e encontro tantas, mas mesmo tantas crianças pela rua sem irem à escola. E a razão é porque não tiveram 10, 20, 30 e 40 euros para pagar a propina. Somos de facto uma gota neste mundo, mas uma gota muito importante. Vamos continuar a ter esperança e a rezar: Senhor e Pai da humanidade, que criastes todos os seres humanos com a mesma dignidade, infundi nos nossos corações um espírito fraterno. Inspirai-nos o sonho de um novo encontro, de diálogo, de justiça e de paz. Estimulai-nos a criar sociedades mais sadias e um mundo mais digno, sem fome, sem pobreza, sem violência, sem guerras. Que o nosso coração se abra a todos os povos e nações da terra, para reconhecer o bem e a beleza que semeastes em cada um deles, para estabelecer laços de unidade, de projetos comuns, de esperanças compartilhadas. Amen
(Papa Francisco in Fratelli Tutti).
Ir. Beta Almendra
“Louca, mas feliz”