«As sete últimas palavras de Cristo na cruz» é um novo livro da Paulus Editora que é acompanhado por um CD. Aqui constam meditações do padre Pablo Lima, sacerdote da Diocese de Viana do Castelo, escritas para uma iniciativa de reflexão que ocorreu no último Domingo de Ramos, 25 de março de 2018, na Basílica dos Congregados, em Braga, a convite do padre Paulo Terroso, reitor da basílica.
No CD, as passagens do Evangelho foram dramatizadas pela voz do ator Miguel Guilherme e acompanhadas pela obra homónima do compositor austríaco Franz Joseph Haydn (1732-1809), interpretada pelo Quarteto Verazin, Quarteto de Cordas residente do Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim (FIMPV).
Segue-se um excerto do novo livro-CD, que está à venda aqui.
6.ª Palavra
P. Pablo Lima
In “As sete últimas palavras de Cristo na cruz”
‘Havia ali uma vasilha cheia de vinagre. Então, ensopando no vinagre uma esponja fixada num ramo de hissopo, chegaram-lha à boca. Quando tomou o vinagre, Jesus disse: “Consumado”.» (João 19,29-30)
Foi para isto que disseste a tua sede e bebeste o nosso vinagre, para tudo consumar. E São João quem nos explica e nos relata uma só palavra: “Tetélesthai”. Apenas uma:" consumado". Consumado e consumido. Umas linhas antes, João nos tinha explicado que Tu viste que "tudo estava consumado". Viste e, agora, dizes: «Consumado.» Ao iniciar o relato da tua Paixão, é o mesmo evangelista que nos diz que Tu «tendo amado os teus que estavam no mundo, amaste-os “eis télos” até à consumação» (Jo 13,1).
É este o sentido do teu "consumado"; o teu amor, a tua paixão que não significa sobretudo, nem em primeiro lugar, sofrimento, mas afeto ardente, que consome, que consuma. "Tudo está consumado" quer dizer que já não podes amar mais, que a tua morte é a medida do teu amor: «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos.» (Jo 15,13)
Não foi a saborear mel, mas vinagre, que se consumou o teu amor. Não foi nos banquetes festivos que tanto amavas, mas no alto da Cruz. E assim ensinas-nos que tudo começa e acaba na tua Cruz. Que ela é o maior sinal de amor, não de tortura! Que não é o euro ou o cifrão o verdadeiro sinal de êxito, mas sim a tua Cruz! Ajuda-nos a compreender e aceitar que a tua hora, a tua glória, a tua majestade está crucificada. E que não há outro caminho autêntico para o cristão que não passe pela tua Cruz. Por isso, escreveu Lutero", «que não é bom e a ninguém aproveita conhecer a Deus na sua glória e majestade, sem conhecê-l'O primeiro no seu rebaixamento e na ignomínia da cruz».
Certo, ninguém deve procurar a cruz! Até porque uma cruz sem Cristo não é cristianismo, é masoquismo! Mas um Cristo sem cruz também não é cristianismo, é ilusionismo! Não há obra verdadeira que não comece com uma cruz. O primeiro grande arquiteto e vencedor do plano-piloto da cidade de Brasília, Lúcio Costa, escreveu, ao desenhar o primeiro plano da cidade, que a capital do Brasil não tem a forma de um avião, mas de uma cruz: «Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz.» E, desde o alto do Calvário, a sombra da tua Cruz estendeu-se à Humanidade inteira, espalhou-se aos quatro pontos cardeais e ainda cobre o universo inteiro, o passado, o presente e o futuro.
Tudo, tudo está consumado! Nada nem ninguém está fora de Ti: todos estamos abraçados por Ti! O teu amor alcança, repara e purifica o nosso amor parcial, frágil, deficiente. Não há nenhum pecado que não possa ser consumido pela tua sede, no teu fogo. Sim, só do alto da Cruz podia ressoar tão alto o teu grito de vitória: Tudo está consumado! O ódio não tem a última palavra, a violência não tem a última palavra, a maldade não tem a última palavra, és Tu, só Tu, que tens e proclamas não só sete últimas palavras, mas a Ultima, a Definitiva Palavra sobre Deus a Humanidade. Consumado, tudo, tudo, tudo.
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